sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ANOITECER


 
Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?
 
Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.
 
A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.
 
E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.
 
Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.
 
Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim — as palavras —
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.


 Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

MADRIGAL



"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:


'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'

Vês como é simples e linda? 


(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."




Sebastião da Gama ,
in 'Antologia Poética' 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Parabéns, querido neto Felipe

O neto é a hora
do carinho ocioso e estocado, 
não exercido nos próprios filhos e que 
não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados e 
distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de
reeditar o nosso afeto.

Affonso Romano de Sant'Anna,
in Melhores Crônicas

GORJEIOS




Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
 
Manoel de Barros  
In Poesia Completa

quinta-feira, 30 de julho de 2015

IMPROVISO


Arte Laszlo Koday

... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.

E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

quarta-feira, 22 de julho de 2015

DE SEDA




São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

terça-feira, 21 de julho de 2015

QUADRO ANTIGO



Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS


segunda-feira, 20 de julho de 2015

NOMES



Nomes com cheiro de mato:
corticeira,
guajuvira,
aroeira,
manacá.

Helena Kolody
in ‘Sinfonia da Vida’









sexta-feira, 17 de julho de 2015

FLORES




As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.


Dora Ferreira da Silva (1918-2006)




sábado, 11 de julho de 2015

O SÓSIA



 
Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.
 
A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.
 
Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.
 
Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.


Cassiano Ricardo,
in A Face Perdida)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

FADOS CONTRÁRIOS


Fotografia de Nelci Kaaletka


Diz à flor a borboleta:
‘Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz…

Tuas pétalas são asas,
Das nuvens nas tênues gazas,
D’aurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes…

Vamos boiar, entre os lumes
Desses páramos azuis’.
À linda fada dos ares
Responde a silvestre flor:

‘Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor…
Se és do céu a violeta,
Sou da terra a borboleta...

Sigo um destino menor.
Buscas o céu – eu a alfombra,
Queres a luz – eu quero a sombra,
Pedes glória – eu peço amor’...”

Castro Alves
Em “Poesias Completas”, 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CERCO


Arte Giovani Strino 


O corpo começa a consentir,
ceder, abrir fendas
com as chuvas altas,
a mostrar, quase exibir
velhas raízes,rugas, mágoas,
a secura próxima dos galhos;
corpo, sim,ele que foi afável
e crédulo e solar - tão
indiferente agora às matinais
e despenteadas vozes:
distante e tão cercado
de apagadas águas.

Eugénio de Andrade
In "Rente ao Dizer"


quinta-feira, 25 de junho de 2015

PAIRA À TONA DE ÁGUA




Paira à tona de água 
Uma vibração, 
Há uma vaga mágoa 
No meu coração.

Não é porque a brisa 
Ou o que quer que seja 
Faça esta indecisa 
Vibração que adeja, 

Nem é porque eu sinta 
Uma dor qualquer. 
Minha alma é indistinta, 
Não sabe o que quer. 

É uma dor serena, 
Sofre porque vê. 
Tenho tanta pena! 
Soubesse eu de quê!...”

*Fernando Pessoa*
Em “Poesias”, Lisboa, Ed. Ática, 1942.


segunda-feira, 22 de junho de 2015

POEMA DUM FUNCIONÁRIO CANSADO



                  
 
A noite trocou-me os sonhos e as mãos  
dispersou-me os amigos  
tenho o coração confundido e a rua é estreita  
estreita em cada passo  
as casas engolem-nos  
sumimo-nos 
estou num quarto só num quarto só  
com os sonhos trocados  
com toda a vida às avessas a arder num quarto só  
Sou um funcionário apagado  
um funcionário triste  
a minha alma não acompanha a minha mão  
Débito e Crédito Débito e Crédito  
a minha alma não dança com os números  
tento escondê-la envergonhado 
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente 
e debitou-me na minha conta de empregado 
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar 
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever? 
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço 
Soletro velhas palavras generosas 
Flor rapariga amigo menino  
irmão beijo namorada  
mãe estrela música 
São as palavras cruzadas do meu sonho  
palavras soterradas na prisão da minha vida  
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só. 
     
António Ramos Rosa,
in "Viagem através duma nebulosa", 

domingo, 21 de junho de 2015

SENTIMENTO DA NOITE




Com o fundo poder azul da noite,
que me clareia o coração,
por uma súbita nesga entre as nuvens
reluz o mundo das estrelas e da lua.


Em seu jazigo, lampeja minha alma
com redivivo ardor;
ao pálido perfume das esferas,
a noite dedilha a harpa.


A essa convocação, míngua a penúria
e a preocupação foge.
Mesmo que eu amanhã já não esteja
aqui – aqui estou hoje!

Hermann Hesse
In: Andares

sexta-feira, 19 de junho de 2015

SONETO DA PORTA




Quem bate à minha porta não me busca.
Procura sempre aquele que não sou
e, vulto imóvel atrás de qualquer muro,
é meu sósia ou meu clone, em mim oculto.

Que saiba quem me busca e não me encontra:
sou aquele que está além de mim,
sombra que bebe o sol, angra e laguna
unidos na quimera do horizonte.

Sempre andei me buscando e não me achei:
E ao pôr-do-sol, enquanto espero a vinda
da luz perdida de uma estrela morta,

sinto saudades do que nunca fui,
do que deixei de ser, do que sonhei
e se escondeu de mim atrás da porta.



Lêdo Ivo
in "Plenilúnio".

terça-feira, 16 de junho de 2015

LÁ FORA, O FRIO PREPARA A SUA GEADA...




Lá fora, o frio prepara a sua geada,
a noite clara, os pássaros dormindo.
A lenha rubra em fogo se esvaindo,
um poema tecendo a sua meada.
Algo se foi. A casa está vazia.
As tábuas gastas de tantos andares
têm a memória plena de cantares
a desfiar o tempo que se adia.
Tudo é silêncio. Salvo a melodia
do fogo afugentando com urgência
a nota surda da melancolia.
Tudo é fugaz. Apenas permanece
a brasa em sua adiada despedida –
e o poema, agora cálido, se tece.
 
Renato Tapado
In Palavras na Penumbra

segunda-feira, 15 de junho de 2015

UM DIA JUNTEI TODAS AS PALAVRAS



Um dia juntei todas as palavras
que já aprendera e
busquei para elas novos sentidos,
novas maneiras de soar e de voar
até ao coração dos homens.
Censuraram-me por tê-lo feito
e houve até quem dissesse:
“As palavras são o que são
e procurar para elas novos significados
é pura perda de tempo e ofensa dos deuses.”
Eu não lhes dei ouvidos
e continuei a escrever, aprendendo
O sabor de casar a palavra ”água”
com a palavra ”vento” e a palavra
“corpo” com a palavra “terra”
e a palavra “homem” com “sonho”
e a palavra “natureza” com “vida”.
Foi, assim um pouco sem o querer,
um pouco sem o esperar, que usei
pela primeira vez a palavra”poesia”,
que viaja comigo, companheira eterna,
para todos os lugares onde vou,
desde a memória do homem
até aos últimos esconderijos da noite,
até ao fundo da claridade dos dias(…)

José Jorge Letria
In “No Voo de uma palavra”


quarta-feira, 10 de junho de 2015

SONETO 73



Soneto (73)


Esta estação do ano podes vê-la 
em mim: folhas caindo ou já caídas; 
ramos que o frémito do frio gela; 
árvore em ruína, aves despedidas. 
E podes ver em mim, crepuscular, 
o dia que se extingue sobre o poente, 
com a noite sem astros a anunciar 
o repouso da morte, gradualmente. 
Ou podes ver o lume extraordinário, 
morrendo do que vive: a claridade, 
deitado sobre o leito mortuário 
que é a cinza da sua mocidade. 
      Eis o que torna o amor mais forte: 
      amar quem está tão próximo da morte. 


William Shakespeare, in "Sonetos" 
Tradução de Carlos de Oliveira 


segunda-feira, 8 de junho de 2015

CREPÚSCULO DE OUTONO



O crepúsculo cai, manso como uma benção. 
Dir-se-á que o rio chora a prisão de seu leito… 
As grandes mãos da sombra evangélicas pensam 
As feridas que a vida abriu em cada peito.

O outono amarelece e despoja os lariços. 
Um corvo passa e grasna, e deixa esparso no ar 
O terror augural de encantos e feitiços. 
As flores morrem. Toda a relva entra a murchar.

Os pinheiros porém viçam, e serão breve 
Todo o verde que a vista espairecendo vejas, 
Mais negros sobre a alvura unânime da neve, 
Altos e espirituais como flechas de igrejas.

Um sino plange. A sua voz ritma o murmúrio 
Do rio, e isso parece a voz da solidão. 
E essa voz enche o vale…o horizonte purpúreo… 
Consoladora como um divino perdão.

O sol fundiu a neve. A folhagem vermelha 
Reponta. Apenas há, nos barrancos retortos, 
Flocos, que a luz do poente extática semelha 
A um rebanho infeliz de cordeirinhos mortos.

A sombra casa os sons numa grave harmonia. 
E tamanha esperança e uma tão grande paz 
Avultam do clarão que cinge a serrania, 
Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.


Manuel Bandeira 
De A cinza das Horas 

domingo, 7 de junho de 2015

ANTES DE ANTECIPARMOS O FUTURO




Antes de anteciparmos o futuro acrescentemos
à voz da terra o sobressalto das fontes
refugiando a sede.
Nenhuma nascente escapa à exigência,
tão vulnerável, da secura do barro
que nos separa das nuvens.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012










terça-feira, 2 de junho de 2015

CANÇÃO DO RECOMEÇO


Arte de Luis Romero

A casa aonde voltei
depois de muitos anos,
bóia como uma ilha de aguapés na noite,
presa por uma raiz doce e dolorosa
que me define.

Na madrugada caminho pelos quartos
como no fundo do mar
onde essa raiz se finca.
Pelas vidraças, o jardim são algas;
meus filhos dormem como quando
eram meninos,
e suas respirações, como sentimentos,
fundem-se neste bojo.

Este é o meu lugar
aonde voltei depois de tanto tempo,
como quem, misturando peças
dos enigmas mais arcaicos,
montasse laboriosamente o seu quebra-cabeça.

Lya Luft

LOGRO



Como se tivessem aves afogadas no olhar, 
os meninos desenham com cinza 
as flores do jardim. 
Cresceram. Os berlindes perderam a cor. 
As fadas que lhes embalavam o sono 
desapareceram dos livros. 
Os navios dos piratas seguiram outros rumos. 
Um fuso imaginário alterou certeiro 
o pulsar dos segundos no lastro dos dias.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

domingo, 31 de maio de 2015

LEO-NARDO, ALEGRIA EM MAIO*


Arte de Margarita Sikorskaia

31 de maio de 2015 às 04:56
I
Era uma vez Ele.
Que sorria encantado, quando
em meu colo dormindo,
ouvia-me ao violão dedilhar:
dó, ré, mi, fá, sol, lá, si.
 
II
Era uma vez Ele.
Da palma da minha mão,
num pulo a pouso na cesta
que escolhi da Malásia:
corpo d'Água Viva - cipó, coração.
 
III
Era uma vez Ele.
Pequeno grandes olhos de rubis
brilhando. Cor do sangue
em nossas veias, adormece
alerta em Luas Novas e Cheias.
 
[Enquanto ouve o caminho inverso:
dó, sí, lá, sol, fá, mi, ré, dó]
 
IV
Era uma vez Ele.
Que, safo, nunca pergunta
o quê menos ou mais dizer:
Sempre sabe o mais preciso saber!
 
V
Era uma vez Ele.
Um Leão. Beduíno que alimenta 
o Atlântico Dragão Cigano: fera
infante insone em veloz (a)crescer.
 
Coração de Planalto e Mar íntimos,
Ele gosta de ferramentas.
Um martelo laranja sorvendo
e socando o Verão.
Gosta de mais brincar - com lápis
livros, cores, fitas e bolas de sabão:
 
Nelas, atrevido, mira.
Nelas atira
um alicate ou flecha - que explodiam
em sussurro marretados nos Legos.
 
VI
Era uma vez Ele.
Que dormia ao som das notas que,
indo e vindo, dó a dó - não escondiam
uma risada em Sol Maior...
 
VII
Era uma vez Ele.
Gêmeo de nós, Leo. Invernos de mim
- que quase tudo já disseram Winters!
Que não precisa a ninguém seguir:
 
À frente, pronto a me encontrar
com ferramentas d'Alma; cores
e dores remidas em safras por vir.
Leo, Lion - cobra Alegria ao Dragão.
 
VIII
Era e sempre foi Ele.
Nas Savanas de Maio, um Cigano
assim. Ele, mínimo e máximo:
corpo inteiro entregue à Vida.
 
Veste-se pois em farra de cores
e olhos - como quem declara só
querer Ser a criança que o pai
procura dentro e fora de si, sol, Dono!
 
 
*Jairo De Britto, em "Dunas de Marfim"
[São Paulo/SP - Brasil - 2005]
Para: Leonardo Ramon
Para/To: Leo Winters (In memoriam)




sexta-feira, 29 de maio de 2015

DEPOIS DO FIM


Arte  Hans Andersen Brendekilde


A minha vida ,agora, é tão outono
Como é a luz do sol quando se põe...
Ventura que se chama e não responde,
A dar a sensação de abandono...

Nas malhas dessa rede que é o sonho
Nos sonhos que são feitos de raízes.
Do tempo em que vivi dias felizes,
É só, quando não sinto este abandono...

.Não tenho fé em nada, nem em mim!
Nem é o medo do "depois do fim",
Que me faz faz continuar por estes trilhos...

.A força. porque vivo, mesmo assim,
Não é coragem ou pena de mim... 
É por ser mulher, mãe de meus filhos...
.

Nidia Horta,
em BAILANDO O CAMINHO...
ENCONTREI UMA ROSA..

quinta-feira, 28 de maio de 2015

NÃO ME DEIXES!



Debruçada nas águas dum regato
A flor dizia em vão
À corrente, onde bela se mirava:
'Ai, não me deixes, não!'

'Comigo fica ou leva-me contigo
Dos mares à amplidão;
Límpido ou turvo, te amarei constante;
Mas não me deixes, não!'

E a corrente passava; novas águas
Após as outras vão;
E a flor sempre a dizer curva na fonte:
'Ai, não me deixes, não!'

E das águas que fogem incessantes
À eterna sucessão
Dizia sempre a flor, e sempre embalde:
'Ai, não me deixes, não!'

Por fim desfalecida e a cor murchada,
Quase a lamber o chão,
Buscava inda a corrente por dizer-lhe
Que a não deixasse, não.

A corrente impiedosa a flor enleia,
Leva-a do seu torrão;
A afundar-se dizia a pobrezinha:
'Não me deixaste, não!'.”

Antônio Gonçalves Dias,
de "Nossos Clássicos"

TENHO TANTO SENTIMENTO





Tenho tanto sentimento
Que é frequente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.

Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.

Qual porém é verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.”

Fernando Pessoa
Em “Cancioneiro”

segunda-feira, 25 de maio de 2015

''VEREDAS--DA--VIDA''


Arte de Igor Zenin

...sonho...sonho... sonho...
...sonho mares, espaços vazios,
...sonho cores, plantas,
montanhas , animais...
pinto quadros em letras...
pinto poemas por sinais...
...crio um mundo alucinante
de beleza e de cor...
serei poeta... ou serei pintor?
sou apenas eu,
ser amante da tela colorida,
em sonho errante
pelas veredas da vida...
Oeiras, 31 de Agosto de 2013
Nìdia Horta

CANÇÃO




Passa o vento de outono
derrubando a tarde:
caem torres douradas,
folhas azuis caem.

E passa o tempo louco
derrubando os sonhos:
caem torres de amor,
trêmulas folhas caem.

No vazio cai,
sem fim, meu coração.
Nada pode salvar-me.
Deus sabe que estou morto.

Sobre mim passa um rio
de esquecimento sem remédio.
Acima cruzam flores.
Sei que ninguém me ouve.

Eduardo Carranza
In: Antologia Poética



sexta-feira, 22 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO


Arte Dima Dmitriev

"Nós adoecemos da ausência de amigos.
Precisamos desse reconhecimento mútuo,
pessoa a pessoa: um reconhecimento não
fundado no confronto ou na competição,
mas no afeto; não determinado meramente
pelas leis da justiça ou pelos vínculos
de sangue, mas assente na gratuidade.
O olhar do amigo é uma âncora. A ela
nos seguramos em estações diferentes
da vida para receber esse bem inestimável
de que temos absoluta necessidade e que,
verdadeiramente, só a amizade nos pode
dar: a certeza de que somos acompanhados
e reconhecidos. Sem isso a vida é uma
baça surdina destinada ao esquecimento."

José Tolentino Mendonça, 
em "Nenhum Caminho será Longo"

quinta-feira, 21 de maio de 2015

EM TEMPO



TEMPO vamos fazer uma troca? 
Eu lhe dou as minhas rugas 
Você devolve o meu rosto 
Jovem e limpo como ontem. 
Eu lhe dou cabelos brancos 
Você me devolve os cachos 
Negros, longos, bem sedosos 
Assim como antigamente. 
Eu lhe dou minha agenda 
Cheia de notas e horários 
E você me dá de volta 
Meu álbum de figurinhas 
Toma de mim a caneta, 
Cadernos prá corrigir 
Me dá de volta os meus lápis 
E quadros prá eu colorir. 
Eu lhe dou toda essa roupa 
Que devo agora lavar 
Você me dá outra vez 
Bonecas para eu brincar. 
Eu lhe dou a pia cheia 
De pratos engordurados 
E você me dá em troca 
Caxixis para eu brincar. 
Eu lhe dou esses transportes 
Que sou obrigada a usar 
E você me dá de volta 
Bicicleta para eu montar. 
Eu lhe dou esses meus óculos 
Que da cara já não tiro 
E você me dá de volta 
Os meus olhos com o seu brilho. 
Eu lhe dou as minhas pernas 
Que já andam lentamente 
Em você devolve em troca 
As grossas de antigamente. 
Eu lhe entrego os meus braços 
Cansados de trabalhar 
Você me dá os meus braços 
Relaxados de folgar. 


 Mabel Velloso
de  PEDRAS DE SEIXO

terça-feira, 19 de maio de 2015

XI


Arte Luiza Gelts


Ah! velhos livros... Emoções passadas...
Já não nos falam mais como falaram!
Se são as mesmas pálpebras cansadas
e os mesmos olhos, já que não mudaram

as palavras das páginas marcadas,
por que não choram mais onde choraram?
É que as palavras ficam bem guardadas
lá no recanto d’alma em que ficaram.

E quantas almas há num corpo, quantas!
— cismo ao reler um livro, velho amigo
que o tempo amarelou e a que umas plantas

deram um cheiro bom de tempo antigo,
e que eu embora leia tantas vezes,
tantas… quero chorar e não consigo!


Onestaldo d Pennafort,
in Poesia


sábado, 16 de maio de 2015

FLOR AMARELA



Arte DonaldZolan

Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela 
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.


Ivan Junqueira,
in  Poesia reunida

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A IMPLACÁVEL COLHEITA





Quando criança, roubaram-lhe
(em nome da cara boa conduta)...
o direito à Alegria. Ele resistiu.

Quando jovem, roubaram-lhe
(em nome da ordem e progresso)
o direito à Rebeldia. Ele revidou.

Quando adulto, roubaram-lhe
(em nome do mais querido Ter)
o direito de Ser. Ele assentiu.

À meia idade, roubaram-lhe
(em nome dos bons costumes)
o sagrado Querer. Ele aceitou.

Quando completou seus 80 anos,
(aniversariante obediente ao rito)
viu o quê permitiu! Ele perdeu.

Ele, atônito fantasma de si à deriva:
que nada a ninguém pediu e culpa.
Ele, dono do Tempo agora inútil.
Ele, só – diante do horror do não-Ser!


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”


terça-feira, 12 de maio de 2015

A CASA DA INFÂNCIA





"A casa da infância é como um rosto de mãe: 
contemplamo-lo como se já existisse antes 
de haver o Tempo."

Mia Couto 
in O outro pé da sereia.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




“Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos:
 plantem nesse lugar um plátano, onde o vento 
 enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos;
 ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham
 uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco.
 Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for,
 a terra ficará mais habitável.

 Um poema ou uma  árvore podem ainda salvar o mundo.”
 
 Eugénio de Andrade ,
 in Palavras em Serrúbia (2003)

AS MULHERES ASPIRAM A CASA PARA DENTRO DOS PULMÕES




As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados

sábado, 9 de maio de 2015

MÃE


Arte Emili Munie


São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas,nada mais...
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu!
E apenas menor do que Deus...

Mario Quintana 
in Lili Inventa o Mundo




sexta-feira, 8 de maio de 2015

NÓS





Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...

Guilherme de Almeida (1860-1969)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMPO


Arte Reint Withaar

Voltamos sempre à casa de campo. 
Quando não estamos as plantas 
crescem de modo irregular e o pó 
acumula-se nos móveis e nos livros. 
Não importa. 
Nós voltamos apenas para regar a sede, 
beber a terra, colher a paisagem, 
mastigar o silêncio, partilhar a fome 
e tornar depois a ir embora 
com o corpo a doer da própria ausência.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


terça-feira, 5 de maio de 2015

AO VENTO DE OUTONO




Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.


Joan Vinyoli
(1914-1984)
Tradução de João Cabral de Melo Neto.


sábado, 2 de maio de 2015

SÃO AS PESSOAS COMO TU...



"São as pessoas como tu que fazem com que o nada
 queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem
 coisas importantes e as preocupações maiores sejam
 de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que 
 dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva 
 em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação
 de rosas rubras. As pessoas como tu possuem não uma,
 mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam
 porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
 Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem
 transformar o cansaço numa esperança aliciante,
 tocando-nos o rosto com dedos de água pura,
 soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a
 firmeza da flecha.

 São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem
 inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs,
 e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos
 o coração transformar o peito numa música infinita.

 São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm
 sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros 
 nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura
 da vida,capazes da beleza e da justiça, do sofrimento
 e do amor.

 São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se 
 interrogam, e encontram a resposta para todas as
 perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

 As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para 
 que ela possa levar beleza e ternura a outras
 mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado 
 para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer
 momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, 
 a escutar um violino.

 São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo!..."
 
Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum' 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MIA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

terça-feira, 28 de abril de 2015

A ESTRELA




Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira,
in  Estrela da vida inteira


segunda-feira, 27 de abril de 2015

CAIS


Arte de Yuri Obukhovski

Ténue é o cais 
no Inverno frio. 
Ténue é o voo 
do pássaro cinzento. 
Ténue é o sono 
que adormece o navio. 
No vago cais 
do balouço da bruma 
ténue é a estrela 
que um peixe morde. 
Ténue é o porto 
nos olhos do casario. 
Mas o que em fora nos dilui 
faz-nos exactos por dentro. 

Fernando Namora,
 in 'Marketing'

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16



Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler





quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA


Arte de Graham Gercken

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno


A FLOR DO SONHO




A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim!... 
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa de minh'alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi...



 FLORBELA ESPANCA 
In Livro de Mágoas, 1919 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUÍNAS




Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...


Florbela Espanca