terça-feira, 22 de abril de 2014

LEMBRANÇA


Hoje a infância voltou com a chuva.
Rosto colado à vidraça, vi pequenos rios
arrastando folhas e formigas
rumo ao desconhecido de sempre.

Ricardo Augusto dos Anjos
de 'Agrolírica'

sexta-feira, 18 de abril de 2014

O VÍCIO DE LER




 "O vício de ler tudo o que me caísse nas mãos ocupava o meu
 tempo  livre e quase todo o das aulas. Podia recitar poemas
 completos  do repertório popular que nessa altura eram de
 uso  corrente na  Colômbia, e os mais belos do Século de
 Ouro e do  romantismo  espanhóis, muitos deles aprendidos
 nos próprios  textos do  colégio. Estes conhecimentos
 extemporâneos na  minha idade  exasperavam os
 professores, pois cada vez que  me faziam na aula  qualquer
 pergunta difícil, respondia-lhes  com uma citação  literária
 ou com alguma ideia livresca que  eles não estavam em
  condições de avaliar. O padre Mejia  disse: «É um garoto
 afectado», para não dizer insuportável.
 Nunca tive que forçar a memória, pois os poemas e alguns
 trechos de boa prosa clássica ficavam-me  gravados em três
 ou quatro releituras.  Ganhei do padre prefeito a primeira
 caneta de tinta permanente  que tive porque lhe recitei sem
 erros as cinquenta e sete  décimas de «A vertigem», de
 Gaspar Núnez de Arce. 

 Lia nas aulas, com o livro aberto em cima dos joelhos e com 
 tal descaramento que a minha impunidade só parecia possível 
 devido à cumplicidade dos professores. A única coisa que não
 consegui com as minhas astúcias bem rimadas foi que me
 perdoassem a missa diária às sete da manhã. Além de escrever
 as minhas tolices, era solista no coro, desenhava 
 caricaturas cômicas, recitava poemas nas sessões solenes e
 tantas coisas mais foras de horas e de lugar que ninguém
 entendia a que horas estudava. A razão era a mais simples:
 não estudava.
 No meio de tanto dinamismo supérfluo, ainda não entendo
 porque razão os professores se interessavam tanto por 
 mim sem barafustar com a minha má ortografia. Ao contrário
 da minha mãe, que escondia do meu pai algumas das minhas
 cartas para o manter vivo e outras, mas devolvia 
 corrigidas e às vezes com os parabéns por certos
 progressos gramaticais e o bom uso das palavras.
 Mas ao fim de dois anos não houve melhorias à vista.
 Hoje o meu problema continua a ser o mesmo: nunca 
consegui entender porque se admitem letras mudas ou duas
 letras diferentes com o mesmo som e tantas outras normas
 sem razão. 

 Foi assim que descobri em mim uma vocação que me havia de
 acompanhar toda a vida: o prazer de conversar com alunos
 mais velhos do que eu. Ainda hoje, em reuniões de jovens
 que poderiam ser meus netos, tenho que fazer um esforço
 para não me sentir mais novo do que eles”.
 Gabriel García Márquez ,
 in Viver Para Contá-la.

terça-feira, 15 de abril de 2014

RESSALVA


Versos... não 
Poesia... não 
um modo diferente de contar velhas histórias 

Cora Coralina 
In ‘Poemas dos Becos de Goiás’ (1965)



"ESTREITO ESPAÇO PARA A ILUSÃO"


Antes, em voo ousado, a imaginação
Subia até aos céus, plena de alento:
Hoje basta um estreito espaço para a ilusão
Se afundar nos abismos do tempo.
Logo o cuidado se aninha bem dentro
Do peito e traz secreto sofrimento;
Balança inquieto, estorva prazer e paz,
São sempre novas as máscaras que traz:
É casa e bens, mulher, os filhos que tiverdes,
Água, fogo, punhal, veneno, eu sei lá;
E tu tremes com medo do que nunca virá,
E choras sem cessar aquilo que não perdes.


Johann Wolfgang von Goethe
in Fausto



SAUDADE


Saudade
Saudade de tudo!...
Saudade, essencial e orgânica,
de horas passadas,
que eu podia viver e não vivi!...
Saudade de gente que não conheço,
de amigos nascidos noutras terras,
de almas órfãs e irmãs,
de minha gente dispersa,
que talvez até hoje ainda espere por mim...

Saudade triste do passado,
saudade gloriosa do futuro,
saudade de todos os presentes
vividos fora de mim!...

Pressa!...
Ânsia voraz de me fazer em muitos,
fome angustiosa da fusão de tudo
sede da volta final
da grande experiência:
uma só alma em um só corpo,
uma só alma-corpo,
um só,
um!...
Como quem fecha numa gota
o Oceano
afogado no fundo de si mesmo...

- João Guimarães Rosa,
in 'Magma'.


sexta-feira, 11 de abril de 2014

CANÇÃO



Quando a alta onda de poesia
veio do arcano profundo,
no pobre e efêmero mundo
o eterno pôs-se a pulsar.
Vidas se transfiguraram,
permutaram-se destinos.
O azul se fez mais etéreo,
estradas mais se alongaram,
silêncio cantou na aldeia
sino ficou a escutar,
moeu trigo a lua cheia,
lampião de rua deu luar,
a água mansa da lagoa
ergueu-se em repuxo límpido
e se esqueceu de tombar,
alvas estrelas em bando
desceram lentas pousando
sobre a terra e sobre o mar.


Tasso da Silveira
in Regresso à Origem (1960).


CANÇÃO




Esse mar tanto sulcado
por meus avós navegantes,
fugindo das praias de antes
ficou dentro em mim guardado.
Pois quanto mais alto e fundo
e perdido é o sonho, vejo
que os barcos todos do mundo
navegam no meu desejo.


Tasso da Silveira
Poemas de Antes – l.966 –


CANÇÃO



Fonte, não beberei de tua água
(À sombra pura
tenho o meu cântaro fresco)
Não beberei de tua água,
mas ouvirei teu canto.
Ouvi-lo-ei com os ouvidos
do teu mistério eterno.
Teu canto é antigo e amanhecente.
É caos e gênese.
E é como o canto
do rouxinol que cantou cem anos,
e o monge ficou escutando em êxtase,
ficou escutando, escutando,
ficou escutando ...


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

CANÇÃO



Os ouvidos eternos
ficaram, atentos, escutando
o fundo rumor dos passos:

dos passos dos homens
pelos 
caminhos]
do mundo.


Tasso da Silveira
in Poemas de Antes

LUA DE SEMPRE



Ah, esta lua tão branca é a minha
..............Lua de sempre.
Não é verdade que se tenham escoado os
..............instantes inumeráveis.
Esta Lua alumia ainda a minha alma
..............de menino,
e seu puro clarão escorre sobre as frescas
..............madressilvas
da cerca de ripas do quintal antigo.
Esta Lua tão branca é a Lua do
..............mundo imenso
em que não havia nem sofrimento nem tumulto.
Do mundo de silência infinito,
de cujo seio surdia o canto misterioso
dos seres e dos destinos...


Tasso da Silveira
in Canções a Curitiba
& outros poemas

UM PASSARINHO CANTA



Um passarinho canta
para o canto perder-se.

Para o canto fundir-se
no éter puro e sereno,
no silêncio das coisas,
no mistério dos seres.

Um passarinho canta
apenas porque é vida:
a vida é apenas canto,
canto efêmero.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


quinta-feira, 10 de abril de 2014

quarta-feira, 9 de abril de 2014

ILHA DE COS



Eu sabia que tinha de haver um sítio
Onde o humano e o divino se tocassem
Não propriamente a terra do sagrado
Mas uma terra para o homem e para os deuses
Feitos à sua imagem e semelhança
Um lugar de harmonia
Com sua tragédia é certo
Mas onde a luz incita à busca da verdade
E onde o homem não tem outros limites
Senão os da sua própria liberdade

Manuel Alegre,
in Chegar aqui

QUINTO POEMA DO PESCADOR



Eu não sei de oração senão perguntas
ou silêncios ou gestos ou ficar
de noite frente ao mar não de mãos juntas
mas a pescar.

Não pesco só nas águas mas nos céus
e a minha pesca é quase uma oração
porque dou graças sem saber se Deus
é sim ou não.

Manuel Alegre
In ‘A Praça Da Canção’ ( 1975)






MAS QUE SEI EU



Mas que sei eu das folhas no Outono
ao vento vorazmente arremessadas
quando eu passo pelas madrugadas
tal como passaria qualquer dono?

Eu sei que é vão o vento e lento o sono
e acabam coisas mal principiadas
no ínvio precipício das geadas
que pressinto no meu fundo abandono

Nenhum súbito súbdito lamenta
a dor de assim passar que me atormenta
e me ergue no ar como outra fogueira qualquer.

Mas eu que sei destas manhãs?
as coisas vêm vão e são tão vãs
como este olhar que ignoro que me olha


Ruy Belo
(In «todos os poemas)




segunda-feira, 7 de abril de 2014

NASCIMENTO ÚLTIMO



Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.

António Ramos Rosa
No Calcanhar do Vento - 1987

NÃO SOU NINGUÉM



Não sou Ninguém! Quem é você?
Ninguém — Também?
Então somos um par?
Não conte! Podem espalhar!

Que triste — ser — Alguém!
Que pública — a Fama —
Dizer seu nome — como a Rã —
Para as palmas da Lama!


Emily Dickinson
Tradução de Augusto de Campos.





domingo, 6 de abril de 2014

É VELHO O SOL DESTE MUNDO...



É velho o sol deste mundo; 
velha, a solidão da palavra, 
a solidão do objeto; 
e o chão - o chão onde os pés 
caminham. 
Donde o pássaro voa para a árvore. 
Ferreira Gullar 
In "A Luta Corporal e Outros Poemas"

ACTO DE CONTRIÇÃO



Pelo que não fiz, perdão!
Pelo tempo que vi, parado,
correr chamando por mim,
pelos enganos que talvez
poupando me empobreceram,
pelas esperanças que não tive
e os sonhos que somente
sonhando julguei viver,
pelos olhares amortalhados
na cinza de sóis que apaguei
com riscos de quem já sabe,
por todos os desvarios
que nem cheguei a conceber,
pelos risos, pelas lágrimas,
pelos beijos e mais coisas,
que sem dó de mim malogrei

— por tudo, vida, perdão!

Adolfo Casais Monteiro
(1908-1972)

sábado, 5 de abril de 2014

CONTRANARCISO



Em mim
eu vejo o outro
e outro
e outro
enfim dezenas
trens passando
vagões cheios de gente
centenas

o outro
que há em mim
é você
você
e você

assim como
eu estou em você
eu estou nele
em nós
e só quando estamos sós
estamos em paz
mesmo que estejamos a sós

Paulo Leminski, 
in Toda Poesia

quarta-feira, 2 de abril de 2014

JOGO DA VERDADE



A verdade é um labirinto.

Se digo a verdade inteira,
se digo tudo o que penso,
se digo com todas as letras,
com todos os pingos nos is,
seria um deus-nos-acuda,
entraria um sudoeste
pela janela da sala.
Então eu digo
a verdade possível,
e o resto guardo
a sete chaves
no meu cofre de silêncios.

Roseana Murray
In Pera,Uva ou Maça.












segunda-feira, 31 de março de 2014

TANTO



Para Lygia F. Telles

Nada entendo de signos: 
se digo flor é flor, se digo àgua 
é água. ( Mas pode ser disfarce de um segredo.) 
Se não podem sentir, não torçam 
a arvore-de-coral do meu silêncio: 
deixem que eu represente meu papel. 

Não me queiram prender como a um inseto 
no alfinete da interpretação: 
se não me podem amar, me esqueçam. 
Sou uma mulher sozinha num palco, 
e já me pesa demais todo esse ofício. 
Basta que a torturada vida das palavras 
deite seu fogo ou mel na folha quieta, 
num texto qualquer com o meu nome embaixo.

LYA LUFT
In Mulher no Palco, 1984



domingo, 30 de março de 2014

LEMBRETES




É importante acordar
a tempo

é importante penetrar
o tempo

é importante vigiar
o desabrochar do destino.


Orides Fontela ,
in Trevo

ESTAÇÕES



" Estão em mim as estações
como se fossem uma só
as quatro sempre estão em mim
são quatro faixas de um abismo
da aurora até o ocaso
a chuva o verde o sol o vento
sem me desvelar estão em mim
são a missão recém-nascida
e são os mortos do meu mundo
minhas ocultas estações
me fazem feliz / sofrem por mim
cada uma delas tem um céu
e cada céu é um espelho
que fala de todos e de mim
as estações se congregam
se reconhecem e se abraçam
as quatro sempre estão em mim
sou seu fervor suas folhas mortas
seu granizo suas colheitas
sua porta aberta seus cadeados
sua insolação seus aguaceiros
como um destino estão em mim
as estações se embaralham
para se mesclar com minha vida
para se juntar com minha morte
e então fugir de mim ."

Mario Benedetti
in , " Correio do tempo "

sexta-feira, 28 de março de 2014

HÁ OÁSIS




nos desertos
procuram-se oásis

ficam por lá as marcas
de viajantes…
… e de camelos

há vidas desertas
pés escaldados sonhando oásis

há vidas,
oásis em alguns desertos

… há viajantes


Joaquim do Carmo
in "Amanhecer pelo fim da tarde"

SOLEMNIA VERBA




Disse ao meu coração: Olha por quantos
Caminhos vãos andámos! Considera
Agora, desta altura, fria e austera,
Os ermos que regaram nossos prantos...

Pó e cinzas, onde houve flor e encantos!
E a noite, onde foi luz a Primavera!
Olha a teus pés o mundo e desespera,
Semeador de sombras e quebrantos!

Porém o coração, feito valente
Na escola da tortura repetida,
E no uso do pensar tornado crente,

Respondeu: Desta altura vejo o Amor!
Viver não foi em vão, se isto é vida,
Nem foi demais o desengano e a dor.


Antero de Quental,
in "Sonetos"


quinta-feira, 27 de março de 2014

A MANHÃ É DE TODOS.


A Manhã é de todos-
A Noite - a alguns dada -
Para os poucos do império -
A luz da Madrugada.



Emily Dickinson
(1830-1886)
In "Cem Poemas"
Trad. de Ana Luísa Amaral.


domingo, 9 de março de 2014

PEDIDO DE DEMISSÃO



Por não saber fazer o bife perfeito,
por não pregar o botão na camisa,
por não manter o sapato engraxado,
por ser a companheira insuficiente,
impertinente, indecisa,
por não saber me comportar quando ao seu lado

eu me retiro.
E se confiro o saldo apurado,
só me entristeço:
por ver o acorde no violão estaganado,
o poema de amor interminado,
o romantismo que hoje já não se admite.
E no lugar que agora eu não mereço,
fica uma vaga a quem quer que se habilite.
Não fica mágoa,
não deixo sombras,
nem endereço.

Flora Figueiredo
in Florescência













sábado, 8 de março de 2014

A MULHER



Ó Mulher! Como és fraca e como és forte!
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!

Quantas morrem saudosa duma imagem.
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca rir alegremente!

Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doce alma de dor e sofrimento!

Paixão que faria a felicidade.
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!


Florbela Espanca,
in “Trocando olhares”











SER MULHER



Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida; a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
no ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tantálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!

- Gilka Machado,
in “Cristais Partidos” 1915.


 

sexta-feira, 7 de março de 2014

BALADA DE SEMPRE



Espero a tua vinda,
a tua vinda,
em dia de lua cheia.
Debruço-me sobre a noite
inventando crescentes e luares.
Espero o momento da chegada
com o cansaço e o ardor de todas as chegadas.
Rasgarás nuvens, estradas,
abrindo clareiras
nas vielas de ciladas.
Saltarás por cima de mares,
de planícies e relevos
— ânsia alada
no meu desejo imaginada.

Mas…
enquanto deixo a janela aberta
para entrares,
o mar,
aí, além,
lambe-me os braços hirtos, braços verdes,
algas de sonho,
…e desenha ironias na areia molhada.



Fernando Namora,
de As Frias Madrugadas,
Editora Arcádia, Lisboa





quinta-feira, 6 de março de 2014

PLENITUDE



Vai alto o dia. O sol a pino ofusca e vibra.
O ar é como de forja. A força nova e pura
Da vida embriaga e exalta. E eu sinto. fibra a fibra,
Avassalar-me o ser a vontade da cura.

A energia vital que no ventre profundo
Da Terra estuante ofega e penetra as raízes,
Sobe no caule, faz todo galho fecundo
E estala na amplidão das ramadas felizes,

Entra-me como um vinho acre pelas narinas…
Arde-me na garganta… E nas artérias sinto
O bálsamo aromado e quente das resinas
Que vem na exalação de cada terebinto.

O furor de criação dionisíaco estua
No fundo das rechãs, no flanco das montanhas,
E eu absorvo-o nos sons, na glória da luz crua
E ouço-o ardente bater dentro em minhas entranhas

Tenho êxtase de santo… Ânsias para a virtude…
Canta em minh´alma absorta um mundo de harmonias.
Vêm-me audácias de heroi… Sonho o que jamais pude
- Belo como Davi, forte como Golias…

E neste curto instante em que todo me exalto
De tudo o que não sou, gozo tudo o que invejo,
E nunca o sonho humano assim subiu tão alto
Nem flamejou mais bela a chama do desejo.

E tudo isso me vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida…
Vós que me dais o grande exemplo de beleza
E me dais o divino apetite da vida!


Manuel Bandeira


terça-feira, 4 de março de 2014

MARÇO VOLTOU



Março voltou, esta
ácida loucura de pássaros
está outra vez à nossa porta,
o ar

de vidro vai direito ao coração.
Também elas cantam, as montanhas:
somente nenhum de nós
as ouve, distraídos

com o monótono silabar do vento
ou doutros peregrinos.
Já sabeis como temos ainda restos
de pudor.

e pelo mundo
uma enorme, enorme indiferença.


Eugénio de Andrade,
in Branco no branco (1984)

















domingo, 2 de março de 2014

CERTA FERIDA




Como a árvore a que cortam um galho
e permanece (aparentemente) intacta
-suportar em silêncio certos afrontamentos.


Foi profundo o talho
embora o tronco se ostente sólido
impassível.


Uma flor brotava errante
na parte decepada.


Eu a mereci.
E isto basta
na sucessão das possíveis primaveras.


Affonso Romano de Sant’Anna,
in Vestígios


REPASSANDO


Interessado no passado, estou.
O passado, impaciente, me acena
me habita, me ordena.

O presente é uma vaga aliança
da aparência com a esperança.

O futuro pode esperar:
ele é uma fruta
que ao invés de ser colhida, me habita
e me impele a madurar.



Affonso Romano de Sant’Anna
In “POESIA REUNIDA”


sábado, 1 de março de 2014

UM CAMINHO DE PALAVRAS




Tudo o que sei, já lá está, mas não estão os meus passos
 nem os meus braços. Por isso caminho, caminho, porque
 há um intervalo entre tudo e eu, e nesse intervalo caminho
 e descubro o meu caminho.

Mas entre mim e os meus passos há um intervalo também:

 então invento os meus passos e o meu próprio caminho. 
E com as palavras de vento e de pedras, invento o vento e
 as pedras, caminho um caminho de palavras.

Caminho um caminho de palavras
(porque me deram o sol)
e por esse caminho me ligo ao sol
e pelo sol me ligo a mim

E porque a noite não tem limites
alargo o dia e faço-me dia
e faço-me sol porque o sol existe

Mas a noite existe
e a palavra sabe-o.



António Ramos Rosa,
in "Sobre o Rosto da Terra"





quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

TEUS OLHOS




Teus olhos são a pátria do relâmpago e da lágrima,
silêncio que fala,
tempestades sem vento, mar sem ondas,
pássaros presos, douradas feras adormecidas,
topázios ímpios como a verdade,
outono numa clareira de bosque onde a luz canta no ombro
duma árvore e são pássaros todas as folhas,
praia que a manhã encontra constelada de olhos,
cesta de frutos de fogo,
mentira que alimenta,
espelhos deste mundo, portas do além,
pulsação tranquila do mar ao meio-dia,
universo que estremece,
paisagem solitária.

Octavio Paz
(1914-1998)
in "Liberdade sob Palavra"
Tradução de Luis Pignatelli




terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

AI DAQUELES...



ai daqueles
que se amaram sem nenhuma briga
aqueles que deixaram
que a mágoa nova
virasse chaga antiga

ai daqueles que se amaram
sem saber que amar é pão feito em casa
e que a pedra só não voa
porque não quer
não porque não tem asa.


Paulo Leminski
In Toda Poesia

PARA UMAS NOITES QUE ANDAM FAZENDO



deixe eu abrir a porta
quero ver se a noite vai bem

quem sabe a lua lua 
ou nos sonhos crianças
sombras murmuram amém

deixe ver quem some antes
a nuvem a estrela ou ninguém

Paulo Leminski
In O Ex-estranho

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

O QUE RENASCE


- Que vais colher, plantar acaso?
- Há um sopro
de noite murcha nos quintais. É a hora.
- Hora de semear?
- De ter. De ir
buscando o que renasce.
- O que renasce?
- O que, incessante, de si mesmo flui.
- Vamos regar as flores desoladas,
semear luzes pelas ruas mudas
onde ninguém mais vela?
- O que renasce.
- Vamos levar ás árvores o sangue
das madrugadas, seiva aos caules, canto,
sol aos que choram, longe?
- O que renasce.
- Levar a vida , a vida que renasce,
aos que mortos se vão sem estar mortos?
- O que renasce.
- A vida?
- O que renasce.
- A morte?
- A vida.A morte. O que renasce.

Alphonsus de Guimaraens Filho
In Discurso no Deserto


DO AZUL, NUM SONETO



Verificar o azul nem sempre é puro.
Melhor será revê-lo entre as ramadas
e os altos frutos de um pomar escuro
- azul de tênues bocas desoladas.

Melhor será sonhá-lo em madrugadas,
fresco inconstante azul sempre imaturo,
azul de claridades sufocadas
latejando nas pedras - nascituro.

Não este azul, mas outro e dolorido,
evanescente azul que na orvalhada
ficou, pétala ingênua, torturada.

Recupero-o, sem ter, e ei-lo perdido,
azul de voz, de sombra envenenada,
que em nós se esvai sem nunca ter vivido.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do tempo











domingo, 23 de fevereiro de 2014

CREIO NAS PALAVRAS...



Creio nas palavras
transparentes
que pertencem ao vento
ao sal
à latitude pura

Aqui
no meu reduto
entre ramos de ar
entre a cintilante indolência da água
creio no que nos une
em ondas vagas
apaixonadamente lentas

Aqui
eu pertenço
ao centro da nudez
como uma gota de água
ao rés do solo
na sua imediata e nua felicidade

António Ramos Rosa,
in "Numa Folha, leve e livre"

sábado, 22 de fevereiro de 2014

LYA LUFT



 No instrumento de nossa orquestração
somos - junto com fatalidades,genética
e acaso - os afinadores e os artistas.
Somos, antes disso, construtores de
nosso instrumento. O que torna a lida
mais difícil, porém muito mais
instigante.

Lya Luft,
in Perdas & Ganhos

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

A MEIO DO CAMINHO



Fico entre o céu e a terra,
Choro só para dentro.
Sou como a árvore nua
que ao alto os ramos indica:
ergue as asas, mas não voa,
tem raízes, mas não desce.

Alberto de Lacerda
in Caminhos da Moderna Poesia Portuguesa










quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

VIAGEM




O beijo da quilha
na boca da água
me vai trocando entre o céu e mar,
o azul de outro azul,
enquanto
na funda transparência
sinto a vertigem
de minha própria origem
e nem sequer já sei
que olhos são os meus
e em que água
se naufraga minha alma

Se chorasse, agora,
o mar inteiro
me entraria pelos olhos

Mia Couto,
In Raiz de Orvalho e outros poemas








quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

VELHA CASA



Fomos ver a casa anunciada.
E nos demos conta
de que as casas, como as pessoas,
morrem.
Logo à entrada,
a cerâmica, arcaica,
mostrava como uns poucos anos
podem acumular o pó dos séculos.
Dentro, tapetes bordados a mão,
tipo casa-grande,
talvez portugueses,
bronzes antigos,
faianças,
vasos de plantas,
peças avulsas
de mobiliário nobre.
Tudo com a pátina,
a ronha,
a ferrugem,
o fungo,
o cuspo,
o vômito do tempo.
E, contudo,
podia-se sentir
—ainda! ainda!—
o amor que presidira
à feitura, à escolha,
à disposição
de tudo aquilo
em composições plásticas
de que emanava calor.
E no conjunto se multiplicava
da soma das peças o valor,
mercê da mais-valia
da poesia
e do amor.
Na parede da sala um retrato
lindo de mulher,
no escritório fotografias
de juventude,
contrastantes
com o bafio e o bolor.
Na casa abandonada
fizeram ninho vespas,
aranhas, mofo, enfim
a fauniflora do esquecimento,
solfejando morte, inferno e dor.
Ah! melancolia
de ver que nada somos,
nada valemos,
nada! Mas a lição
de que,
de tudo,
sobrevive,
só,
o que a alma tocou.

Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)




CANTO NEGRO



Sou negro.
A cor da noite adensa a minha pele
e estrela a minha alma.

Sou negro.
Absorvo toda a luz.
Sou amigo do Sol e da Lua.
São meus irmãos todos os seres da Terra.

Sou negro.
Meu sangue é ardente.
Meu pensamento é ardente.
O mundo é para mim o Verbo emocionado.

Sou negro.
E, como a natureza ama o contraste,
amo as mulheres de pele branca e cabelo macio.
Mas, como o coração é um sol
consumindo-se em fogo,
amo as mulheres de pele noturna e sexo forte.
E com todas vou forjando o dia, a tarde e a noite.

Sou negro.
Com meu suor e meu sangue,
meu desespero e minha revolta,
minha dedicação e minha brandura,
minha força e meu sonho,
modelo em bronze e nuvem
o quinhão de humanidade que me coube.

Sou negro.
Meu coração não é incolor,
minha alma não é pálida.
Caminho com meus irmãos de todos os tons.
Juntos, numa ciranda ainda feroz de semelhantes e contrários
mas que do alto Deus vê de mãos entrelaçadas,
vamos fazendo de matéria nobre
—este barro pobre,
esta liga impura—
a luz comum futura.

Sou negro.
E sou branco e amarelo e vermelho e moreno.
E verde.
E azul.

Sou todo o espectro da alma.

Sou homem.


Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)
















DESGOVERNO



Por um momento,
deixar que as emoções tomem o leme
e experimentar o sabor da tempestade.

Anderson Braga Horta
In Pulso (2000)










SILÊNCIO




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Escuto, na solidão,
crescer as relvas da infância
nos vales do coração.

Anderson Braga Horta
Cronoscópio (1983)