quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

AH! QUEREM UMA LUZ




Ah! querem uma luz melhor que a do Sol!
Querem prados mais verdes do que estes!
Querem flores mais belas do que estas que vejo!
A mim este Sol, estes prados, estas flores contentam-me.

Mas, se acaso me descontentam,
O que quero é um sol mais sol que o Sol,
O que quero é prados mais prados que estes prados,
O que quero é flores mais estas flores que estas flores —
Tudo mais ideal do que é do mesmo modo e da mesma maneira!

Alberto Caeiro
in Poemas Inconjuntos




domingo, 22 de janeiro de 2017

SONETO A QUATRO MÃOS




Tudo de amor que existe em mim foi dado. 
Tudo que fala em mim de amor foi dito. 
Do nada em mim o amor fez o infinito 
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado 
Tão fácil para amar fiquei proscrito. 
Cada voto que fiz ergueu-se em grito 
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse 
Nesse meu pobre coração humano 
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano 
Melhor fora que desse e recebesse 
Para viver da vida o amor sem dano.


Vinícius de Moraes
e Paulo Mendes Campos




sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

DOR




"Há de ser uma estrada de amarguras 
a tua vida. E andá-la-ás sozinho, 
vendo sempre fugir o que procuras 
disse-me um dia um pálido adivinho. 

"No entanto, sempre hás de cantar venturas 
que jamais encontraste... O teu caminho, 
dirás que é cheio de alegrias puras, 
de horas boas, de beijos, de carinho..." 

E assim tem sido... Escondo os meus lamentos: 
É meu destino suportar sorrindo 
as desventuras e os padecimentos. 

E no mundo hei de andar, neste desgosto, 
a mentir ao meu íntimo, cobrindo 
os sinais destas lágrimas no rosto! 


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

MARIA



Maria, há tanta Maria
cantando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida.

Andei mundo, rodei terra,
cruzei os mares que havia
e, em cada canto da terra,
o amor eu tive, Maria.

Na vida que Deus me deu,
deu-me tudo o que eu queria:
deu-me esperança e me deu
o amor que eu sempre amaria.

Eis por que sempre há Maria
mariando na minha vida.
Maria cheia de graça,
Maria cheia de vida. 

Gilberto Mendonça Teles

CHÁ DAS CINCO




para Jorge Amado 

Chá de poejo para o teu desejo 
chá de alfavaca já que a carne é fraca 
chá de poaia e rabo de saia 
chá de erva-cidreira se ela for solteira 
chá de beldroega se ela foge ou nega 
chá de panela para as coisas dela 
chá de alecrim se ela for ruim 
chá de losna se ela late ou rosna 
chá de abacate se ela rosna ou late 
chá de sabugueiro para ser ligeiro 
chá funcho quando houver caruncho 
chá de trepadeira para a noite inteira 
chá de boldo se ela pedir soldo 
chá de confrei se ela for de lei 
chá de macela se não for donzela 
chá de alho para um ato falho 
chá de bico quando houve fuxico 
chá de sumiço quando houver enguiço 
chá de estrada se ela for casada 
chá de marmelo quando houver duelo 
chá de douradinha se ela for gordinha 
chá de fedegoso pra mijar gostoso 
chá de cadeira para a vez primeira 
chá de jalapa quando for no tapa 
chá de catuaba quando não se acaba 
chá de jurema se exigir poema 
chá de hortelã e até amanhã 
chá de erva-doce e acabou-se 

(pelo sim pelo não 
chá de barbatimão) 


Gilberto Mendonça Teles

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

SAUDADES





Dominando a planície, a fronde aberta
Ao Sol, beijada pela ventania,
De áureas flores e pássaros coberta,
Farfalhando, aquela árvore se erguia.

Quando o Sol, pelo azul, a chama experta,
Como um jade crisântemo - se abria,
Cantava logo um rumor d'asa, e, alerta,
Logo o bando de pássaros a enchia.

Era toda rumor. Suaves, bailando
Em torno, havia, namoradas dela,
Borboletas intrépidas, em bando.

E, do chão, como fúlgidas centelhas,
Insetos de ouro vinham ver aquela
Doce amiga de pássaros e abelhas.


Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)



CONDOR




VI

Foste um sonho no azul. Viste rolar de perto
A áurea roda do Sol. No etéreo sorvedouro
Do infinito, escutaste os temporais em coro,
O barulho do céu de mil nuvens coberto.

Asas ao vento, a bater no firmamento aberto,
Quanta vez, negro e só, viste, espantado, o louro
Bando de astros faiscar no intérmino Deserto
Como constelações de borboletas de ouro!

E subiste... A Amplidão te acalentou nos braços
Largos. Alto, a rolar, embalde o Sol faiscantes,
Crespas ondas de luz golfejou nos espaços.

E caíste, afinal, palpitante e convulso.
E hoje, guardas no olhar as mil nuvens distantes,
- Astro frio e sem luz, dentre os astros expulso!... 

Humberto de Campos
In ‘Poesias Completas’ (1933)





terça-feira, 17 de janeiro de 2017

EXCERTO LITERÁRIO




“E quando à tua frente se abrirem muitas
 estradas e não souberes a que hás-de escolher,
 não te metas por uma ao acaso, senta-te e espera.
 Respira com a mesma profundidade confiante com
 que respiraste no dia em que vieste ao mundo,
 e sem deixares que nada te distraia, 
 espera e volta a esperar. 
 Fica quieta, em silêncio e ouve o teu coração.
 Quando ele te falar, 
 levanta-te e vai para onde ele te levar."



Susana Tomaro,
in "Vai aonde te leva o Coração"



quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

REINAUGURAÇÃO





Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmistificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nessa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez, e revestidos de beleza,
a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem
como nuvens errantes no universo estável.

Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos
a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante,
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos apenas finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1º de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.


Carlos Drummond de Andrade,
In: Farwell

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

SEM MEDO OU PIEDADE



Arte Victor Bregeda


A página 
em branco,
que a tantos 
assusta,
na verdade 
pouco custa:

Era aquilo, 
agora é isso!

Jairo De Britto,
em "Dunas de Marfim"

terça-feira, 1 de novembro de 2016

EXCERTO LITERÁRIO




"O menino então sorri e nem o inimigo mais
feroz resistirá a esse sorriso de quem se
oferece tão sem defesa."

Lygia Fagundes Telles ,
in Verão no Áquário

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

OLHA-ME RINDO UMA CRIANÇA


Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou.
Tenho razão, tenho esperança
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso
Que e nem sequer sorriso meu.
Mas para meu não o preciso
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar
Sorriu ao certo para mim...
És a memória de um lugar,
Onde já fui feliz assim.

Fernando Pessoa

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

LAR




Lar é onde se acende o lume e se partilha mesa
e onde se dorme à noite o sono da infância.
Lar é onde se encontra a luz acesa quando se chega tarde.
Lar é onde os pequenos ruídos nos confortam:
um estalar de madeiras, um ranger de degraus,
um sussurrar de cortinas.
Lar é onde não se discute a posição dos quadros,
como se eles estivessem ali desde o princípio dos tempos.
Lar é onde a ponta desfiada do tapete, a mancha de humidade no tecto,
o pequeno defeito do caixilho,
são imutáveis como uma assinatura reconhecida.
Lar é onde os objectos têm vida própria e as paredes
nos contam histórias.
Lar é onde cheira a bolos, a canela, a caramelo.
Lar é onde nos amam.

Rosa Lobato Faria ,
in "O Sétimo Véu"








domingo, 2 de outubro de 2016

APRENDENDO A VERBEJAR*




Engatinhar
sem rumo previsto.
Nunca aceitar imposto
diverso caminho.

Balbuciar, 
sem uso bem visto, 
em inverso e vário
mais atrevido abuso.

Até silabar,
de repente, a mesma
palavra frequente
como original avatar.

Repetir 
tudo aquilo, 
num grave grito aflito,
e num arguir tranquilo.

Dizer, 
diante da vida
e da morte, Tudo:

Antes do fim previsto!

Até um dia sentir
o saber, a dor, 
a alegria e gosto 
da frase inédita:

Todos os tempos do Verbo
inquieto – a dieta angélica,
a gramática rupreste, 
a tempestade que invade
a majestade da Língua!

(Essa, a glória profana;
a ousadia do bardo bárbaro Ser!)

Jairo de Britto,
em “Aquarela da Madrugada”
Vitória, Espírito Santo - Brasil

domingo, 18 de setembro de 2016

FIZ DO VERDE MEU CAMINHO...



Fiz do verde meu caminho,
fiz da vida plantação;
plantei flor e passarinho,
filhos, versos e oração.
Plantei pão e plantei vinho,
com o amor da minha mão.
Caminhei por verdes mares,
fiz sorrir verdes olhares,
verde foi o meu jardim.
Verde foi minha esperança
no verdor das minhas tranças...
Hoje restam só lembranças
com as quais brinco cantares
da ventura que há em mim.
O Senhor é meu pastor
e nas verdes pradarias
me regala paz sem fim!


Patricia Neme,
em Tempos

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Às vezes, não há nenhum aviso...




“Às vezes, não há nenhum aviso.
As coisas acontecem em segundos.
Tudo muda.
Você está vivo.
Você está morto.
E as coisas continuam. 
Somos finos como papel. 
Existimos por acaso entre as 
percentagens, temporariamente.
E esta é a melhor e a pior parte,
o fator temporal.
E não há nada que se possa fazer
sobre isso. Você pode sentar no 
topo de uma montanha e meditar
por décadas e nada vai mudar.
Você pode mudar a si mesmo 
para ser aceitável mas talvez 
isso também esteja errado.
Talvez pensemos demais.
Sinta mais, pense menos.”

Charles Bukowski 
in , " O capitão saiu para o almoço
e os marinheiros tomaram conta do navio "

FERNANDO PESSOA




" Nascemos sem saber falar e morremos 
sem ter sabido dizer .
Passa-se nossa vida entre o silêncio de quem
está calado e o silêncio de quem não foi
entendido , e em torno disto , como uma abelha
em torno de onde não há flores , paira incógnito
um inútil destino ."

Fernando Pessoa , 
in " No jardim de Epícteto "





HORA LILÁS...




Hora lilás, da cor desta saudade
Que não me deixa mais o coração,
Hora em que a alma toda se me invade
Só de tristeza e de desolação ...

Hora em que eu lembro a minha pouca idade
E a minha tão cruel desilusão ...
Tudo se esvai na bruma da saudade,
Essa tão doce e triste cerração ...

Hora lias, da cor que me entristece,
Desta saudade que jamais esquece
Meu coração cansado de sofrer;

Hora em que eu vivo a vida já vivida,
Hora lilás, da cor da minha vida,
Pois é saudade só o meu viver.

Anrique Paço D’Arcos
in Poesias Completas











sábado, 13 de agosto de 2016

A CASA


Arte Margarita Sikorskaia



Sei dos filhos
pelo modo como ocupam a casa:
uns buscam os recantos,
outros existem à janela.

A uns satisfaz uma sombra,
a outros nem o mundo basta.
Uns batem com a porta,
outros hesitam como se não houvesse saída.

Raras vezes sou pai.
Sou sempre todos os meus filhos,
sou a mão indecisa no fecho,
sou a noite passada entre relógio e escuro.

Em mim ecoa a voz
que, à entrada, se anuncia: cheguei!
E eu sorrio, de resposta: chegou?
Mas se nunca ninguém partiu…

E tanto em mim
demoram as esperas
que me fui trocando por soalho
e me converti em sonolenta janela.

Agora, eu mesmo sou a casa,
casa infatigável casa
a que meus filhos
eternamente regressam. 

- Mia Couto, 
em “Tradutor de chuvas”

segunda-feira, 25 de julho de 2016

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro-de-riga,
uma faia ou um abeto

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lódão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.

Jorge Sousa Braga, 
“Herbário”, Assírio e Alvim, 1999

DORMIR UM POUCO...





Dormir um pouco — um minuto,
um século. Acordar
na crista
duma onda, ser
o lastro de espuma
que há no sono
das algas. Ou
ser apenas
a maré, que sempre
volta
para dizer: eu não morri, eu sou
a borboleta
do vento, a flor
incandescente destas águas.

Albano Martins,
in "Castália e Outros Poemas"


quinta-feira, 7 de abril de 2016

DA CONDIÇÃO HUMANA


Todos sofremos. 
O mesmo ferro oculto 
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta 
O mesmo sal nos queima os olhos vivos. 
Em todos dorme 
A humanidade que nos foi imposta. 
Onde nos encontramos, divergimos. 
É por sermos iguais que nos esquecemos 
Que foi do mesmo sangue, 
Que foi do mesmo ventre que surgimos.



Ary dos Santos
in 'Liturgia do Sangue'

terça-feira, 5 de abril de 2016

A CALIGRAFIA DO SILÊNCIO


Fotografia Leo Flores

Ando pelas ruas desta incerta cidade.
Deixo que o meu olhar
se ajuste ao olhar dos outros.
Entre ruas e rostos há fragmentos de solidão
que denunciam a trágica expressão da vida.
Todos conhecem a oralidade da mudez,
a vigília da revolta, a senha do desdém,
a estranheza de golpes imolando os sonhos.
Eu, com uma fala colada na língua,
somente me consinto
a áspera caligrafia do silêncio.

Graça Pires
De Uma claridade que cega, 2015

sábado, 12 de março de 2016

ELA VAI CRESCER VENDO POESIA....




Ela vai crescer vendo poesia no umbigo da lua,
enquanto ele amará os números embutidos nos
anéis de saturno. Ela será a rima que se atira
sem medida protetiva; ele calculará o próximo
passo, o gesto, a isca, com a maior segurança .
Desde sempre ela é o excesso e, passem décadas,
não medirá esforços em seu transbordamento.

Ele, daqui a mais de trinta outonos,
economizará palavras, exercendo seu direito
de represa.

Ela sonhará com aquele amor criança e lhe
dará uma chance, caso ele "enloucresça".

valéria tarelho

terça-feira, 23 de fevereiro de 2016

AO SOL




Naufragas na noite
em pompas de luz e imensidade
todo germe palpita na semente
e da nova manhã ressurges
clara divindade

nua a carnação sob o manto escarlate.

- Dora Ferreira da Silva,
 em "Andanças". 






quarta-feira, 3 de fevereiro de 2016

BRINCA À BEIRA MAR




Recua no tempo.
Ajusta a areia aos teus dedos de criança.
Brinca à beira-mar, o teu espaço mais cúmplice.
Já sobre ti rolam as algas e tu, de olhos
fechados, reténs esse prazer apetecido.
As conchas vêm brincar contigo.
Falam do sussurro dos peixes escondidos
nas ervas marinhas, da ancoragem dos barcos
e da lisura das quilhas submersas.
Um bando de pássaros abre-te no peito
um estuário onde as marés se abraçam.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014

REGRESSO




Sem mais nem menos
surgiu o passado,
corpo intranquilo
feito de sons semelhantes
aos rostos que amei,
universo donde me excluí,
mar desprovido de cais
na obliquidade dos contrastes.

Esta noite voltei à minha infância:
menina rosada de sonhos nos bolsos,
bailarina de corda na caixinha de som.

À infância regressa-se solitariamente,
subindo um rio sem margens,
até ao lugar em que a nascente
se confunde com o tempo
e o tempo se transforma em espanto.

Procuro, teimosamente,
o rasto da brisa
que me invade o corpo
e apenas sei que o sonho
é um risco inquietante,
quando a solidão tem rosto
e se conhece a posição das estrelas
no âmago das palavras.

Graça Pires
De Poemas, 1990



VAI CHOVER





Vai chover, e eu vou estar mais triste.
Chuva é distância: esfuma, apaga, esconde.
Doerei por não saber se ainda existe
o verde luar e sonha um quando e um onde.

(É talvez mais mortal haver sorrido
que ter chorado: talvez guarde a boca
sombras que os os olhos já terão perdido...)
Sinto distância em mim. A vida é oca,

e dentro dela chovo, transbordando,
minha cinza, meu longe, estes em que ando
restos de sons e faces de arrebol;

e vejo entre submissa névoa e vento
reabrir-se em curva de ouro o pensamento
das horas que moraram no teu sol.

Abgar Renault
in "Obra Poética" – l.990 –






BREVIDADE


Arte Leonid Afremov

É curto o caminho
largos são os passos
sombria é a travessia.
Longe, ao largo
passeia indiferente
a eternidade.

Miriam Portela



quinta-feira, 26 de novembro de 2015

MONÓLOGO



Estar atento diante do ignorado,
reconhecer-se no desconhecido,
olhar o mundo, o espaço iluminado,
e compreender o que não tem sentido.

Guardar o que não pode ser guardado,
perder o que não pode ser perdido.
— É preciso ser puro, mas cuidado!
É preciso ser livre, mas sentido!

É preciso paciência, e que impaciência!
É preciso pensar, ou esquecer,
e conter a violência, com prudência,

qual desarmada vítima ao querer
vingar-se, sim, vingar-se da existência,
e, misteriosamente, não poder.

Dante Milano,
In melhores Poemas

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



...
então, por favor, me dêem isso:
um pouco de silêncio bom, para que eu escute o
vento nas folhas, a chuva nas lajes, o mar que
quebra na areia, e tudo o que fala muito além
das palavras de todos os textos & muito além
da música dos sentimentos: o grito do silêncio.
sua voz inaudita, voz de vazio, voz oca, voz
que possibilita o diálogo entre tantas vozes
outras, vozes que surgem do (aparente) vazio 
dentro de nós, e que retumbam, e que ressoam,
vozes que se reafirmam satisfeitas, vozes
que pedem mudanças, vozes que precisam ser 
encaradas & resolvidas se necessário.

ouvir a voz do silêncio: a pedra, toda 
exterioridade, um silêncio absoluto defronte
para o mar: ouvir o que sua voz tem a nos ventar.
...


Lya Luft,
in Pensar é transgredir

sábado, 10 de outubro de 2015

TODOS OS DIAS




Todos os dias
nascem pequeninas nuvens,
róseas umas,
aniladas outras,
nacaradas espumas...

Todos os dias
nascem rosas,
também róseas
ou cor de chá, de veludo...

Todos os dias
nascem violetas,
as eleitas
dos pobres corações...

Todos os dias
nascem risos, canções...

Todos os dias
os pássaros acordam
nos seus ninhos de lãs...

Todos os dias
nascem novos dias,
nascem novas manhãs...

Saúl Dias
In ‘Essência’ (1973)

SÓ PORQUE ME SORRISTE




Só porque me sorriste
nessa tarde
o sol inundou a cidade.

E no meio do asfalto,
entre o rumor dos táxis,
surgiram de repente
árvores agrestes cheias
de flores e pássaros.


Saul Dias




sábado, 3 de outubro de 2015

EXCERTO LITERÁRO




Cada pessoa brilha com luz própria,
entre todas as outras. 
Existem fogos grandes e fogos pequenos,
e fogos de todas as cores. Existe gente
de fogo sereno, que nem fica sabendo do 
vento, e existe gente de fogo louco, que
enche o ar de faíscas. Alguns fogos,
fogos bobos, não iluminam nem queimam. 

Mas outros, outros ardem a vida com tanta
vontade que não se pode olhá-los sem 
pestanejar, e quem se aproxima se incendeia.

Eduardo Galeano

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

A ÁRVORE




Ó árvore, quantos séculos levaste 
a aprender a lição que hoje me dizes: 
o equilíbrio, das flores às raízes, 
sugerindo harmonia onde há contraste?

Como consegues evitar que uma haste 
e outra se batam, pondo cicatrizes 
inúteis sobre os membros infelizes? 
Quando as folhas e os frutos comungaste?

Quantos séculos, árvore, de estudos 
e experiências — que o vigor consomem 
entre vigílias e cismares mudos —

demoraste aprendendo o teu exemplo, 
no sossego da selva armada em templo? 
Dize: e não há esperança para o Homem?

Geir Campos
In Rosa dos rumos (1950).
21-9 - Dia da Árvore

domingo, 20 de setembro de 2015

HORA AZUL




Hora azul.No parque, o ocaso
tem sugestões de pintura.
Crescem as sombras e alvura
dos cisnes, no tanque raso.

O velho jardim de luxo
parece um vaso de aromas.
Harmonias policromas
sobem da água do repuxo.

A tarde cai dos espaços 
como uma flor, a um arranco
do vento, cai aos pedaços .

E a noite vem... No jardim,
o luar, como um pavão branco,
abre a cauda de marfim.

Onestaldo de Pennafort
 - In Poesia


sábado, 19 de setembro de 2015

NEBLINA DO TEMPO




Na neblina do tempo
O menino desapareceu,
Levando com ele
Todos meus sonhos e ilusões.
Hoje,resta apenas,
No homem que sou eu,
A sombra do menino,
Daquele menino sonhador
Que fui eu
E que na neblina do tempo
Certa vez se perdeu...


Olympiades Guimarães Corrêa
in Neblina do Tempo 1.996


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

AGUARDAMOS UMA LUZ


Arte Vladimir Kush

Aguardamos uma luz de seiva 
que reacenda a treva que nos cega.
Uma luz que não fira a brancura dos muros
nem as sombras dos alpendres
onde plantámos as giestas bravas.
Uma luz que devolva à terra
a farta lembrança das nascentes.
Uma luz para ficar como herança
quando as aves da morte se afastarem
para sempre deste caos
que, assustadoramente, nos acusa.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

ANOITECER


 
Homem, cantava eu como um pássaro
ao amanhecer. Em plena unanimidade
de um mundo só.
Como, porém, viver num mundo onde todas as coisas
tivessem um só nome?
 
Então, inventei as palavras.
E as palavras pousaram gorjeando sobre o rosto
dos objetos.
 
A realidade, assim, ficou com tantos rostos
quantas são as palavras.
 
E quando eu queria exprimir a tristeza e a alegria
as palavras pousavam em mim, obedientes
ao meu menor aceno lírico.
 
Agora devo ficar mudo.
Só sou sincero quando estou em silêncio.
 
Pois, só quando estou em silêncio
elas pousam em mim — as palavras —
como um bando de pássaros numa árvore
ao anoitecer.


 Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

MADRIGAL



"A minha história é simples.
A tua, meu Amor,
é bem mais simples ainda:


'Era uma vez uma flor,
Nasceu à beira de um Poeta...'

Vês como é simples e linda? 


(O resto conto depois,
mas tão a sós, tão de manso
que só escutemos os dois)."




Sebastião da Gama ,
in 'Antologia Poética' 

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

EXCERTO LITERÁRIO



Parabéns, querido neto Felipe

O neto é a hora
do carinho ocioso e estocado, 
não exercido nos próprios filhos e que 
não pode morrer conosco.
Por isso, os avós são tão desmesurados e 
distribuem tão incontrolável afeição.
Os netos são a última oportunidade de
reeditar o nosso afeto.

Affonso Romano de Sant'Anna,
in Melhores Crônicas

GORJEIOS




Gorjeio é mais bonito do que canto porque nele se
inclui a sedução.
É quando a pássara está enamorada que ela gorjeia.
Ela se enfeita e bota novos meneios na voz.
Seria como perfumar-se a moça para ver o namorado.
É por isso que as árvores ficam loucas se estão gorjeadas.
É por isso que as árvores deliram.
Sob o efeito da sedução da pássara as árvores deliram.
E se orgulham de terem sido escolhidas para o concerto.
As flores dessas árvores depois nascerão mais perfumadas.
 
Manoel de Barros  
In Poesia Completa

quinta-feira, 30 de julho de 2015

IMPROVISO


Arte Laszlo Koday

... Até que um dia,
quando menos se espera,
surge uma casa dentro do sertão
surge outra casa dentro do sertão
surge outra casa uma porção de telhas novas cor
de brasa uma porção de casas.

E uma cidade como caixa de surpresa
listou de branco e de vermelho o silêncio da grota.
Um trem de ferro passa cheio de imigrantes...
(Há em seu apito como um grito de alvorada e de tristeza:
há em toda terra um choro típico de criança,
gosto de lágrimas misturadas com esperança).

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS

quarta-feira, 22 de julho de 2015

DE SEDA




São pequenas as jarras de porcelana
onde deixámos os lírios brancos
que resistiram ao tempo da secura.
E quando os nossos olhos orvalhados
ficaram mais sensíveis à luz
do amanhecer juncámos o chão
que amamos com a brancura dos lírios.
De seda. Da sede: gota a gota.


Graça Pires
De Uma vara de medir o sol, 2012

terça-feira, 21 de julho de 2015

QUADRO ANTIGO



Por certo que amo as coisas, os objetos,
que me acompanham, neste fim de viagem.
São elas, coisas, minhas cúmplices, à hora
em que, ó lua, me contas teus segredos.

São eles, os objetos, os meus símbolos,
para uma última fotomontagem.
Mas, como são — coisas e objetos — tristes,
por já não serem mais os meus brinquedos.

Em vão o calor físico os dilata.
Em vão meu pensamento lhes dilui
o acre contorno, em proustiana sondagem.

Só, contra o sol, a sombra deles flui!
no chão, na mesa, ou — colorida imagem —
no cristal onde nunca sou quem fui.

Cassiano Ricardo,
in POESIAS COMPLETAS


segunda-feira, 20 de julho de 2015

NOMES



Nomes com cheiro de mato:
corticeira,
guajuvira,
aroeira,
manacá.

Helena Kolody
in ‘Sinfonia da Vida’









sexta-feira, 17 de julho de 2015

FLORES




As flores do inverno vão se abrindo
em arbustos sem folhas
candelabros de ramos
que se aquecem
na débil luz que emana das corolas.
Falam em surdina, veladas de aroma,
as pétalas, bailarinas do pudor,
confidenciando nos vórtices secretos
dentro da pálpebra do dia sem calor.


Dora Ferreira da Silva (1918-2006)




sábado, 11 de julho de 2015

O SÓSIA



 
Dificilmente, ó amigo,
você me encontrará presente, em casa.
Pois eu sofro de ausência,
como se houvesse, em mim, uma asa.
 
A esperança e a saudade
— o leste e o oeste do meu corpo obscuro —
são duas formas de eu nunca estar em casa,
quando me procuram, e eu mesmo me procuro.
 
Vivo continuamente longe
de mim, nas horas em que me decomponho
num sonho; estou no outro hemisfério,
que é um não sei onde, onde só ausência lavra.
 
Só me encontro comigo, ó amigo,
se me divido em dois, diante do espelho
Um em frente do outro,
sem nenhuma palavra.


Cassiano Ricardo,
in A Face Perdida)

quinta-feira, 2 de julho de 2015

FADOS CONTRÁRIOS


Fotografia de Nelci Kaaletka


Diz à flor a borboleta:
‘Vamos, irmã, tudo é luz!
Há muito prisma doirado
Que pelos ares transluz…

Tuas pétalas são asas,
Das nuvens nas tênues gazas,
D’aurora nos seios nus
Tens um ninho entre perfumes…

Vamos boiar, entre os lumes
Desses páramos azuis’.
À linda fada dos ares
Responde a silvestre flor:

‘Eu amo o gemer das auras
E o beijo do beija-flor…
Se és do céu a violeta,
Sou da terra a borboleta...

Sigo um destino menor.
Buscas o céu – eu a alfombra,
Queres a luz – eu quero a sombra,
Pedes glória – eu peço amor’...”

Castro Alves
Em “Poesias Completas”, 

segunda-feira, 29 de junho de 2015

CERCO


Arte Giovani Strino 


O corpo começa a consentir,
ceder, abrir fendas
com as chuvas altas,
a mostrar, quase exibir
velhas raízes,rugas, mágoas,
a secura próxima dos galhos;
corpo, sim,ele que foi afável
e crédulo e solar - tão
indiferente agora às matinais
e despenteadas vozes:
distante e tão cercado
de apagadas águas.

Eugénio de Andrade
In "Rente ao Dizer"