sábado, 28 de março de 2015

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.


Jorge de Sousa Braga 



terça-feira, 24 de março de 2015

ANGÚSTIA





O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


segunda-feira, 23 de março de 2015

A CANÇÃO


Arte by Igor Zenin


Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!

Mario Quintana 
- A Cor do Invisível


LILI





Teu riso de vidro
desce as escadas às cambalhotas 
e nem se quebra, 
Lili, 
meu fantasminha predileto! 
Não que tenhas morrido... 
Quem entra num poema não morre nunca
(e tu entraste em muitos...) 
Muita gente até me pergunta quem és... De tão querida
és talvez a minha irmã mais velha
nos tempos em que eu nem havia nascido. 
És Gabriela, a Liane, a Angelina... sei lá! 
És Bruna em pequenina
que eu desejaria acabar de criar.
Talvez sejas apenas a minha infância! 
E que importa, enfim, se não existes... 
Tu vives tanto, Lili! E obrigado, menina, 
pelos nossos encontros, por esse carinho
de filha que eu não tive...


Mario Quintana,
in Lili Inventa o Mundo

A IMAGEM PERDIDA



Como essas coisas que não valem nada
e parecem guardadas sem motivo
(alguma folha seca... uma taça quebrada...)
eu só tenho um valor estimativo.

Nos olhos que me querem é que eu vivo
esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
refletirá meu vulto vago e esquivo...

E cerraram-se os olhos das amadas,
o meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...

E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
muitas vezes, parei... e, nos espelhos,
procuro em vão minha perdida imagem!

Mario Quintana,
in PREPARATIVOS DE VIAGEM





COISAS DO TEMPO




Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas
pelos que se foram: vamos ficando sozinhos
uns dos outros.

Mario Quintana ,
in Caderno H







DESESPERO


 

Não há nada mais triste do que o grito
de um trem no silêncio noturno.
É a queixa de um estranho animal perdido,
único sobrevivente de alguma espécie extinta,
e que corre, corre, desesperado, noite em
fora, como para escapar à sua orfandade e
solidão de monstro.

Mario Quintana,
in Prosa e Verso




UMA ALEGRIA PARA SEMPRE



(para Helena Quintana)

As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo de sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides…
Que importa se – depois de tudo – tenha “ela” partido
casado, mudado, sumido, esquecido, enganado,
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte da sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
– disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.


Mario Quintana,
in 80 anos de poesia


O SILÊNCIO





Há um grande silêncio que está à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta... 
e cala.

Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo




TROVA




Quem as suas mágoas canta,
Quando acaso as canta bem
Não canta só suas mágoas,
Canta a dos outros também....

Mario Quintana,
in A cor do Invisível




DO SABOR DAS COISAS




Por mais raro que seja,
Ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho 
E silencioso amigo...

Mário Quintana
In: Espelho Mágico

SONETO V




Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente, 
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente, 
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste: 
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . . 
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Mario quintana,
in A Rua dos Cataventos



MELANCOLIA




Maneira romântica de ficar triste.

Mario Quintana;
in Da preguiça como método de trabalho



POESIA




Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade,
e é como se agora este pobre, este único, 
este efêmero minuto do mundo estivesse pintado
numa tela, sempre...

Mario Quintana ,
in Porta Giratória





JARDIM INTERIOR



Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana,
in A Cor do Invisível, 1989



"MEU BONDE PASSA PELO MERCADO




O que há de bom mesmo não está à venda, 
O que há de bom não custa nada. 
Este momento é a flor da eternidade! 
Minha alegria aguda até o grito... 
Não essa alegria alvar das novelas baratas, 
Pois minha alegria inclui também minha tristeza 
- a nossa 
Tristeza... 
Meu companheiro de viagem, sabes? 
Todos os bondes vão para o Infinito!"


Mario Quintana 
- Preparativos de Viagem 1987


TÃO SIMPLES





A verdadeira coragem consiste, apenas,
em não nos importarmos com a opinião dos outros...
Mas como custa!

Mario Quintana 
Da preguiça como método de trabalho

domingo, 22 de março de 2015

DO MEU OUTONO




O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...


O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?


O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...


Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...


O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)







RUA



Procuro a rua
que ainda me resta:
é longa, é alta,
não é essa.
Esqueço o nome,
por sono ou pressa:
é alta, é clara,
mas não é esta.
Em cada esquina
havia festa:
é clara, é vasta,
não é essa.
Nunca me lembro
onde começa:
é vasta, é longa,
mas não é esta.
Rua que não
se manifesta:
é longa, é alta,
não é essa.

Cecília Meireles,
in Poesia Completa
Sonhos


EXCERTO





(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas 
coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas
para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área
de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios
inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os 
relógios revelaram o segredo do seu mecanismo,
e as bonecas o jogo do seu olhar. (...)

Cecília Meireles
in Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguillar





POEMA DO BECO




Que importa a paisagem, a Glória,
 a baía, a linha do horizonte? 
— O que eu vejo é o beco. 


 MANUEL BANDEIRA 
In Estrela da Manhã, 1936

AS GARÇAS



As garças
quando alçam
se entardecem.

Manoel de Barros,
in Poesia Completa


terça-feira, 17 de março de 2015

III


 

O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

Ana Hatherly
In Um Ritmo Perdido




sexta-feira, 13 de março de 2015

15


Foto by Jussara M. Saade Teixeira



Toda uma eternidade se escoou
antes que estas rosas abrissem.
E toda uma eternidade se escoará
depois que elas fenecerem de todo.
Mas no seu fugitivo instante
de milagre e esplendor

elas são um lampejo
de beleza infinita



Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba


terça-feira, 10 de março de 2015

APOTEOSE



No horizonte profundo
mãos invisíveis suspenderam
a cortina sem fim das trevas mortas...

e cem lâmpadas claras se acenderam!

...e a luz radiosa entrou pelas cem
portas do Palácio do Mundo...


Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba
& outros poemas

domingo, 8 de março de 2015

AS MULHERES SÃO MAIS FORTES




 Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes,
 mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens.
 Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais
 fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género
 masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares
 são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir
 autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que
 fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando 
 metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

José Saramago, in 'L'Orient le Jour (2007)'

terça-feira, 3 de março de 2015

SONETO A QUATRO MÃOS




Tudo de amor que existe em mim foi dado. 
Tudo que fala em mim de amor foi dito. 
Do nada em mim o amor fez o infinito 
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado 
Tão fácil para amar fiquei proscrito. 
Cada voto que fiz ergueu-se em grito 
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse 
Nesse meu pobre coração humano 
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano 
Melhor fora que desse e recebesse 
Para viver da vida o amor sem dano.

Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos,
in Poesia completa e Prosa


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

SONETO DO DESMANTELO AZUL



 
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas,
 
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
 
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
 
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul.
Azul.
 
 
Carlos Pena Filho
 
 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EU ESTOU AQUI!



A divindade se foi,
como tanta ilusão da mocidade.
E embora perdido, sem novelo,
nas masmorras deste pesadelo,
hoje ao menos sei: homem humano,
brasileiro, precário,
escravo sou e por muitos anos,
ainda o serei. Mas a saída
não esqueci: lá, onde a luz
espera aqueles que não traíram
o melhor de si.
E ao pesadelo, aos suores frios,
ao terror da noite
e Deus minotauros, respondo
aos gritos, em nome
de todos os aflitos:
eu sou um homem!
eu estou aqui!


Eduardo Alves da Costa,
in Poesia Reunida

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OBJETO SUJEITO




você nunca vai saber 
quanto custa uma saudade 
o peso agudo no peito 
de carregar uma cidade 
pelo lado de dentro 
como fazer de um verso 
um objeto sujeito 
como passar do presente 
para o pretérito perfeito 
nunca saber direito 
você nunca vai saber 
o que vem depois de sábado 
quem sabe um século 
muito mais lindo e mais sábio 
quem sabe apenas 
mais um domingo 
você nunca vai saber 
e isso é sabedoria 
nada que valha a pena 
a passagem prá pasárgada 
xanudu ou shangrilá 
quem sabe a chave 
de um poema 
e olha lá…

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O GATO TRANQUILO




Ei-lo, quieto, a cismar, como em grave sigilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos,
onça que não cresceu, hoje é um gato tranqüilo.
A sua vida é um "manso lago", sem escolhos...

Não ama a lua, nem telhado a velho estilo.
De uma rica almofada entre os suaves refolhos,
prefere ronronar, em gracioso cochilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos.

Poderia ser mau, fosforescente espanto,
pequenino terror dos pássaros; no entanto,
se fez um professor de silêncio e virtude.

Gato que sonha assim, se algum dia o entenderdes,
vereis quanto é feliz uma alma que se ilude,
e olha a vida através a cor de uns olhos verdes.


Cassiano Ricardo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA...




Para além da curva da estrada 
talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
e talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 
só olho para a estrada antes da curva, 
porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 
De nada me serviria estar olhando para outro lado 
e para aquilo que não vejo. 
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 
Se há alguém para além da curva da estrada, 
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. 
Essa é que é a estrada para eles. 
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos. 
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 
há a estrada sem curva nenhuma. 


Alberto Caeiro, em "Poemas Inconjuntos" 
Heterônimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CARNAVAL




Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...

Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)


AS BELAS, AS PERFEITAS MÁSCARAS




As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...


Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...


Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!



Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro, 1950

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

NASCENTE AZUL


imagem by Igor Zenin


O meu mais infante e puro Amor
repousa além das mais próximas estrelas!
 
Caminha altivo e feliz, sobre todos
os cardos e engodos – origem da Dor.
 
Ele sabe o quanto lhe amo, o quanto
lhe quero; quanto lhe espero encontrar.
 
Sabe que um manso amanhecer haverá:
Capaz de nos reunir em congresso solar.
 
O meu mais infante e puro Amor
resgata, a cada dia, nossa cúmplice idade.
 
Assim cultivamos e mantemos harmonia
e alvo: o claro encontro noutra Cidade.
 
Sabemos que Aquém e Além não existem!
Nosso Tempo é doce brevidade – Alegria.
 
De pai para filho, um anoitecer não há:
Rapaz, cultiva o jardim de Luz em Nosso Lar.

 
 
*Jairo De Britto,
 em “Dunas de Marfim”
(Vitória, Espírito Santo/ Brasil - 28/12/2014)

SONHO, VIGÍLIA, NOITE, MADRUGADA...






Sonho, vigília, noite, madrugada?
Um a um, desfolhei os sete véus,
e adormecido o corpo, a alma acordada,
um a um, escalei os sete céus.

Sem limites de tempo nem espaço,
quanto tempo durou minha viagem?
Andei mundos sem dor e sem cansaço,
ficou, em meu lugar, a minha imagem.

Agora, de regresso, cumpro a pena.
Tudo esqueci dessa abismal distância
mas algo é diferente: volto à arena
com uma nova inocência, um gosto a infância.

Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.



Fernanda de Castro,
in Poesia II





sábado, 14 de fevereiro de 2015

NUVENS (I)



Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.

Jorge Luis Borges
(Tradução : Marcelo Tápia)


SURPRESAS




Este menino tem sempre
cinquenta surpresas nos bolsos:
uma pedrinha encardida que,
diz ele, dá sorte na vida.
Uma bala amassada
que para alguma emergência
ele traz guardada.
Uma viagem de volta ao mundo
em um segundo
e uma entrada (permanente)
para o circo que fica montado
dentro de seu pensamento.


Roseana Murray,
in No Mundo da Lua

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

“BATISMO”




Mergulhei num mar de sonho
E me fiz azul.

Batizei-me...


Adélia Maria Woellner,
in Sons do Silêncio

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

OU... OU




A moça atrás da vidraça 
espia o moço passar. 
O moço nem viu a moça, 
ele é de outro lugar. 

O que a moça quer ouvir 
o moço sabe contar: 
ah, se ele a visse agora, 
bem que havia de parar. 

Atrás da vidraça, a moça 
deixa o peito suspirar. 
O moço passou depressa, 
ou a vida devagar? 


 JOÃO GUIMARÃES ROSA 
In Ave, Palavra, 1970 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

APRENDIZ DE VIAJANTE




 
Um dia li num livro:
«viajar cura a melancolia».
 
Creio que, na altura, acreditei no que lia.
Estava doente, tinha quinze anos.
Não me lembro da doença que me levara à cama,
recordo apenas a impressão que me causara,
então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes
e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,
persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
 
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.
Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,
mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...
Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.
Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,
apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;
vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,
como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,
em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,
se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidiana.
Aprendeu a viver sem possuir nada, sem  um modo de vida.
Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.
Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,
purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;
e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,
os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.
Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;
sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.
A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,
mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,
se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,
o una de novo ao Universo.
 
 
Al berto
em Anjo Mudo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DECEPÇÃO





Ando muito decepcionado com os homens
e comigo. 
Com minha geração, em especial. 
Íamos salvar o mundo
e falhamos. 
Alguns ainda tentam,
Não me iludem. 
Sem dúvida, merecíamos melhor sorte.
Nós –-- os ilustres fracassados
--- e o povo
que nem se dá conta
que tínhamos projetos ótimos para redimi-lo.


Affonso Romano de Sant'Anna


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

É POSSÍVEL




É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

domingo, 1 de fevereiro de 2015

PELAS LARGAS JANELAS ENTRA A NOITE...





Pelas largas janelas entra a noite quieta e um cheiro de frutos maduros,
Pelas janelas abertas chega até nós um perfume frio de estrelas.
Pelas janelas abertas penetra a mansa poesia dos caminhos, das
viagens noturnas com pássaros dormindo nas ramadas...

Oh!o sossego do lampião na mesa tosca,
E o sorriso do amor sobre os postais da parede!

Onde a música não chega, aí estaremos.
Onde o repouso se estender nascendo pelas madrugadas aí estaremos.
Estaremos confundidos pelos ramos virginais e pela nudez das campinas.

Estaremos misturados com os passarinhos das cercas.
Os ruídos dos trens cortarão nossos ouvidos.
Mas as nostalgias não estarão mais em nós,
Porque seremos simples como a noite,
Como a grande noite resinosa e infinita.

Augusto Frederico Schmidt,
in Coleção Melhores Poemas,
 seleção de Ivan Marques


ONDE ESTÃO

   



Onde estão as chaves
Que abriam os portões
Os quartos, as portas das casas
De outrora?

Onde estão as chaves?

Onde estão as casas
As chácaras, os sobrados,
Os pequenos quintais,
Os "chalets"
De outrora?

Onde estão as casas?

Onde estão os seres
Que esperávamos
Ansiosos
Na antecipação da infância?

Onde estão os seres?

Onde estão as amadas
Com as suas bolsas escolares
As suas merendas
E os seus segredos?

Onde estão as amadas?

Onde estão os medos...
Os pecados
Inconfessáveis
Os pressentimentos
As mãos inquietas
Pousando sobre
O incerto destino?

Onde estão os medos?

- Tudo isso se foi
Pelo caminho do frio.

Augusto Frederico Schmidt

sábado, 31 de janeiro de 2015

A CIDADE




A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

INTRUSÃO




O passado não reconhece o seu lugar:
está sempre presente...

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina

XII


Imagem by Igor Zenin


Olhar a realidade face a face!
viver! (mas como se a gente sonhasse...)


Onestaldo de Pennafort,
in Poesia


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

APESAR DA SEDE



Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

EU OUÇO MÚSICA




Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.


Mario Quintana,
in Apontamentos de Historia Sobrenatural