quinta-feira, 21 de maio de 2015

EM TEMPO



TEMPO vamos fazer uma troca? 
Eu lhe dou as minhas rugas 
Você devolve o meu rosto 
Jovem e limpo como ontem. 
Eu lhe dou cabelos brancos 
Você me devolve os cachos 
Negros, longos, bem sedosos 
Assim como antigamente. 
Eu lhe dou minha agenda 
Cheia de notas e horários 
E você me dá de volta 
Meu álbum de figurinhas 
Toma de mim a caneta, 
Cadernos prá corrigir 
Me dá de volta os meus lápis 
E quadros prá eu colorir. 
Eu lhe dou toda essa roupa 
Que devo agora lavar 
Você me dá outra vez 
Bonecas para eu brincar. 
Eu lhe dou a pia cheia 
De pratos engordurados 
E você me dá em troca 
Caxixis para eu brincar. 
Eu lhe dou esses transportes 
Que sou obrigada a usar 
E você me dá de volta 
Bicicleta para eu montar. 
Eu lhe dou esses meus óculos 
Que da cara já não tiro 
E você me dá de volta 
Os meus olhos com o seu brilho. 
Eu lhe dou as minhas pernas 
Que já andam lentamente 
Em você devolve em troca 
As grossas de antigamente. 
Eu lhe entrego os meus braços 
Cansados de trabalhar 
Você me dá os meus braços 
Relaxados de folgar. 


 Mabel Velloso
de  PEDRAS DE SEIXO

terça-feira, 19 de maio de 2015

XI


Arte Luiza Gelts


Ah! velhos livros... Emoções passadas...
Já não nos falam mais como falaram!
Se são as mesmas pálpebras cansadas
e os mesmos olhos, já que não mudaram

as palavras das páginas marcadas,
por que não choram mais onde choraram?
É que as palavras ficam bem guardadas
lá no recanto d’alma em que ficaram.

E quantas almas há num corpo, quantas!
— cismo ao reler um livro, velho amigo
que o tempo amarelou e a que umas plantas

deram um cheiro bom de tempo antigo,
e que eu embora leia tantas vezes,
tantas… quero chorar e não consigo!


Onestaldo d Pennafort,
in Poesia


sábado, 16 de maio de 2015

FLOR AMARELA



Arte DonaldZolan

Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela 
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.


Ivan Junqueira,
in  Poesia reunida

sexta-feira, 15 de maio de 2015

NINFÉIAS




Eu vou aonde as nuvens
de impossíveis tons se embriagam,
eu nado onde aquáticos leques
se irisam em sonhos
e por arte do encanto se dissolvem.

Eu furto cores,
clico roxos que se miram
em espelhos que me expandem.

Bebo a luz, traço a alma,
eu sou o impressionista ambulante.

Então nem me perguntes
por quais cambiantes geografias me espalho:
meus olhos são câmeras mimadas
meus pincéis são artífices do instante.

Fernando Campanella

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A IMPLACÁVEL COLHEITA





Quando criança, roubaram-lhe
(em nome da cara boa conduta)...
o direito à Alegria. Ele resistiu.

Quando jovem, roubaram-lhe
(em nome da ordem e progresso)
o direito à Rebeldia. Ele revidou.

Quando adulto, roubaram-lhe
(em nome do mais querido Ter)
o direito de Ser. Ele assentiu.

À meia idade, roubaram-lhe
(em nome dos bons costumes)
o sagrado Querer. Ele aceitou.

Quando completou seus 80 anos,
(aniversariante obediente ao rito)
viu o quê permitiu! Ele perdeu.

Ele, atônito fantasma de si à deriva:
que nada a ninguém pediu e culpa.
Ele, dono do Tempo agora inútil.
Ele, só – diante do horror do não-Ser!


*Jairo De Britto,
em “Dunas de Marfim”


terça-feira, 12 de maio de 2015

A CASA DA INFÂNCIA





"A casa da infância é como um rosto de mãe: 
contemplamo-lo como se já existisse antes 
de haver o Tempo."

Mia Couto 
in O outro pé da sereia.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

EXCERTO LITERÁRIO




“Eis o que tenho a pedir-vos nos meus oitenta anos:
 plantem nesse lugar um plátano, onde o vento 
 enroladinho no sono possa dormir sem sobressaltos;
 ou uma oliveira, ou um chorão, e à sua roda ponham
 uma sebe da flor doce e musical de espinheiro branco.
 Embora tenha pouca ou nenhuma fé seja no que for,
 a terra ficará mais habitável.

 Um poema ou uma  árvore podem ainda salvar o mundo.”
 
 Eugénio de Andrade ,
 in Palavras em Serrúbia (2003)

AS MULHERES ASPIRAM A CASA PARA DENTRO DOS PULMÕES




As mulheres aspiram a casa para dentro dos pulmões 
E muitas transformam-se em árvores cheias de ninhos - digo, 
As mulheres - ainda que as casas apresentem os telhados inclinados 
Ao peso dos pássaros que se abrigam.

É à janela dos filhos que as mulheres respiram 
Sentadas nos degraus olhando para eles e muitas 
Transformam-se em escadas

Muitas mulheres transformam-se em paisagens 
Em árvores cheias de crianças trepando que se penduram 
Nos ramos - no pescoço das mães - ainda que as árvores irradiem 
Cheias de rebentos

As mulheres aspiram para dentro 
E geram continuamente. Transformam-se em pomares. 
Elas arrumam a casa 
Elas põem a mesa 
Ao redor do coração.

Daniel Faria
de Homens Que São Como Lugares Mal Situados

sábado, 9 de maio de 2015

MÃE


Arte Emili Munie


São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas,nada mais...
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu!
E apenas menor do que Deus...

Mario Quintana 
in Lili Inventa o Mundo




sexta-feira, 8 de maio de 2015

NÓS





Quando as folhas caírem nos caminhos,
ao sentimentalismo do sol poente,
nós dois iremos vagarosamente,
de braços dados, como dois velhinhos...

E que dirá de nós toda essa gente,
quando passarmos mudos e juntinhos?
- "Como se amaram esses coitadinhos!
Como ela vai, como ele vai contente!"

E por onde eu passar e tu passares,
hão de seguir-nos todos os olhares
e debruçar-se as flores nos barrancos...

E por nós, na tristeza do sol posto,
hão de falar as rugas do meu rosto...
Hão de falar os teus cabelos brancos...

Guilherme de Almeida (1860-1969)

quarta-feira, 6 de maio de 2015

CAMPO


Arte Reint Withaar

Voltamos sempre à casa de campo. 
Quando não estamos as plantas 
crescem de modo irregular e o pó 
acumula-se nos móveis e nos livros. 
Não importa. 
Nós voltamos apenas para regar a sede, 
beber a terra, colher a paisagem, 
mastigar o silêncio, partilhar a fome 
e tornar depois a ir embora 
com o corpo a doer da própria ausência.


Graça Pires
De Caderno de significados, 2013


terça-feira, 5 de maio de 2015

AO VENTO DE OUTONO




Vento de outono, vento solitário,
vento da noite,
força obscura que se desprende
do infinito e volta ao infinito,
rodopia dentro de mim, conjura
contra meu coração tua força,
arranca de um vez a casca
do fruto que não madura.


Joan Vinyoli
(1914-1984)
Tradução de João Cabral de Melo Neto.


sábado, 2 de maio de 2015

SÃO AS PESSOAS COMO TU...



"São as pessoas como tu que fazem com que o nada
 queira dizer-nos algo, as coisas vulgares se tornem
 coisas importantes e as preocupações maiores sejam
 de facto mais pequenas. São as pessoas como tu que 
 dão outra dimensão aos dias, transformando a chuva 
 em delirante orvalho e fazendo do inverno uma estação
 de rosas rubras. As pessoas como tu possuem não uma,
 mas todas as vidas. Pessoas que amam e se entregam
 porque amar é também partilhar as mãos e o corpo.
 Pessoas que nos escutam e nos beijam e sabem
 transformar o cansaço numa esperança aliciante,
 tocando-nos o rosto com dedos de água pura,
 soltando-nos os cabelos com a leveza do pássaro ou a
 firmeza da flecha.

 São as pessoas como tu que nos respiram e nos fazem
 inspirar com elas o azul que há no dorso das manhãs,
 e nos estendem os braços e nos apertam até sentirmos
 o coração transformar o peito numa música infinita.

 São as pessoas como tu que não nos pedem nada mas têm
 sempre tudo para dar, e que fazem de nós nem ícaros 
 nem prisioneiros, mas homens e mulheres com a estatura
 da vida,capazes da beleza e da justiça, do sofrimento
 e do amor.

 São as pessoas como tu que, interrogando-nos, se 
 interrogam, e encontram a resposta para todas as
 perguntas nos nossos olhos e no nosso coração.

 As pessoas que por toda a parte deixam uma flor para 
 que ela possa levar beleza e ternura a outras
 mãos. Essas pessoas que estão sempre ao nosso lado 
 para nos ensinar em todos os momentos, ou em qualquer
 momento, a não sentir o medo, a reparar num gesto, 
 a escutar um violino.

 São as pessoas como tu que ajudam a transformar o mundo!..."
 
Joaquim Pessoa,
in 'Ano Comum' 

sexta-feira, 1 de maio de 2015

MIA COUTO



Olhei o poente e vi as aves carregando o sol,
empurrando o dia para outros aléns.

MIA COUTO
in "O último voo do flamingo" 

terça-feira, 28 de abril de 2015

A ESTRELA




Vi uma estrela tão alta,
Vi uma estrela tão fria!
Vi uma estrela luzindo
Na minha vida vazia.

Era uma estrela tão alta!
Era uma estrela tão fria!
Era uma estrela sozinha
Luzindo no fim do dia.

Por que da sua distância
Para a minha companhia
Não baixava aquela estrela?
Por que tão alta luzia?

E ouvi-a na sombra funda
Responder que assim fazia
Para dar uma esperança
Mais triste ao fim do meu dia.


Manuel Bandeira,
in  Estrela da vida inteira


segunda-feira, 27 de abril de 2015

CAIS


Arte de Yuri Obukhovski

Ténue é o cais 
no Inverno frio. 
Ténue é o voo 
do pássaro cinzento. 
Ténue é o sono 
que adormece o navio. 
No vago cais 
do balouço da bruma 
ténue é a estrela 
que um peixe morde. 
Ténue é o porto 
nos olhos do casario. 
Mas o que em fora nos dilui 
faz-nos exactos por dentro. 

Fernando Namora,
 in 'Marketing'

sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16



Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler





quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA


Arte de Graham Gercken

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno


A FLOR DO SONHO




A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim!... 
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa de minh'alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi...



 FLORBELA ESPANCA 
In Livro de Mágoas, 1919 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUÍNAS




Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...


Florbela Espanca

domingo, 19 de abril de 2015

FELICIDADE





A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu
próprio nome.


Jorge de Sena, 
in cadernos de poesia








sábado, 18 de abril de 2015

ORAÇÃO DE INVERNO*





Quero viver
a puros e plenos pulmões.
Respirar sem temer
apuros nem desilusões.
 
Quero viver
savanas de caro inverno.
Aspirar ao impossível
tudo que sabe a eterno.
 
Quero viver
viúvo de más astúcias.
Abarcar aldeia e mundo
salva-vidas de alegrias!
 
Quero viver
avesso ao labirinto.
Alvejar roupas, seios e rio
com poemas em claro cio.
 
Quero viver
a Tudo derramar profundo.
Sempre alerta - em fértil
e vasto campo minado.
 
Quero reler
tudo que alheio à sorte
escrevo e ofereço à morte.
Tarefa rica em pretensão:
 
Talvez somente brinquedo;
talvez apenas vã Oração.
 
 
 
*Jairo De Britto, 
em “Dunas de Marfim”


POEMAS MALDITOS*





Poemas malditos
são sempre escritos
como um vendaval
de verdades.
 
Poemas malditos
são sempre escritos
como vielas de voz única.
 
Poemas malditos
são sempre escritos
com suor e simplicidade.
 
Despidos de toda vaidade,
são aqueles, Mundo afora,
escritos em qualquer Idade.
 
Livrai-nos pois os deuses
daqueles poemas mal ditos
que desprezam verdades!
 
 
*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

QUANDO FORES VELHA



Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


William Butler Yeats
(Tradução de José Agostinho Baptista)


quarta-feira, 15 de abril de 2015

SAUDADES




Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

AZUL





Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.

Helena Kolody
in Viagem no Espelho 

terça-feira, 14 de abril de 2015

LIBERDADE




Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,
 in MAR NOVO

segunda-feira, 13 de abril de 2015

ECCE HOMO




Sei minha origem: sou a chama
e ao iluminar me consumo,
e o que toco se inflama
e deixo cinzas e fumo.
Certamente sou chama.


Friedrich Nietzsche
in Poesias (1871-1888)

domingo, 12 de abril de 2015

ILHA DE COS





Eu sabia que tinha de haver um sítio
Onde o humano e o divino se tocassem
Não propriamente a terra do sagrado
Mas uma terra para o homem e para os deuses
Feitos à sua imagem e semelhança
Um lugar de harmonia
Com sua tragédia é certo
Mas onde a luz incita à busca da verdade
E onde o homem não tem outros limites
Senão os da sua própria liberdade

Manuel Alegre,
in Chegar aqui

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ESTAÇÕES (OUTONO)




Azul no céu o outono;
nas folhas, vermelho
e incerto o coração.
Misturam-se as cores da música
brilhantes no piano
ocres no violoncelo
entre o sim e o não.
Tão longe as cores ficaram
nada ao alcance da mão
esquecidos os nomes, timbres de voz
somos duas a sós:
minha alma no corpo estrangeiro;
passa um vento ligeiro
(leva a minha inspiração?)
Não sei se ouves a tristeza
das pálpebras fechadas
da abandonada beleza
em sendas escondidas
onde andamos. E era vida.
Veio o pasmo e a brandura
desses lábios tão cerrados
sepultura
em seu outono calado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário 

terça-feira, 7 de abril de 2015

POEMA DA VIDA





Os anos passam,
As coisas não se repetem,
São como os rios
Que seguem o seu curso,
Suas águas correm sem destino
E jamais voltam as nascentes...
Seria tão bom se a existência 
Não fosse semelhante aos rios
Que pudessemos voltar
Voltar pelo menos uma vez,
Às nossas antigas origens,
Às nossas velhas raízes,
Plantar árvores,
Comer frutos,
Vê-las crescerem novamente...
Mas somos passageiros pela terra.
Nascemos como os rios,
Seguimos o nosso curso,
Possuímos enfim uma existência fugaz...
Dirás que tudo não passa de palavras,
De vã filosofia,
Mas é na realidade,
Nós nascemos,
Nós vivemos
E finalmente morremos...
A morte é a maior realidade da vida.


Olympiades G.Corrêa 


REGRESSO À ORIGEM





Neste momento, meu Deus, eu só tenho em minha
alma a perplexidade infinita.
Nada mais sei de mim, nem dos outros, nem do sentido do mundo.
Foi como se tivesse caminhado distraidamente e me
perdesse dos rumos costumeiros
E de repente me encontrasse para além das
fronteiras de meu próprio destino.
Não sei se fiquei mais impuro ou mais puro.
Vejo que os que mais me amam estão me deixando caminhar sozinho.
sentindo-me, talvez, estrangeiro em meio deles.
Vejo que todos os que vinham comigo na matinal
alegria das primeiras jornadas
deixaram de deslumbrar-se com a vida.
E perderam o senso do mistério,
e passaram a estranhar os meus olhos, a minha fala, os meus gestos.
Vejo que todos subitamente serenaram 
e ficaram entregues às suas quotidianas tarefas numa aceitação tranqüila,
como se tivessem todos recebido o seu quinhão
justo de amor, de beleza e de bondade,
ao passo que eu vou na mesma sede imitigada, na
mesma procura aflita de sempre.
Não sei se fiquei mais puro ou mais impuro.
Sei que estou caminhando, solitário, para além das fronteiras do meu destino.
E sinto crescer em mim
esta vontade absurda
de descansar de mim mesmo.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


segunda-feira, 6 de abril de 2015

SPLEEN




Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em úmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no teto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães


CHOVE, DE MANSO, NA CIDADE




Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.

Arthur Rimbaud

quarta-feira, 1 de abril de 2015

ESTAÇÕES




Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.


Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.


Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.


Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.


José Jorge Letria

domingo, 29 de março de 2015

UMA ANIVERSARIANTE ILUSTRE




Pode existir
a mais bonita rua
na melhor cidade do mundo

Pode existir
a mais formosa esquina
na melhor cidade do mundo

Pode existir 
o mais funcional espaço
na melhor cidade do mundo

Pode existir
o mais límpido verde
na melhor cidade do mundo

Pode existir
o mais ilustre habitante
na melhor cidade do mundo

Pode existir 
o mais notável céu
na melhor cidade do mundo

Mas 
nenhuma rua 
tem a mesma poesia

nenhuma esquina
tem o mesmo fascínio

nenhuma praça
tem a mesma sedução

nenhum espaço
tem o mesmo encanto

nenhum verde 
tem o mesmo tom

nenhum habitante
tem a mesma simpatia

nenhum céu
tem o mesmo deslumbramento

Que a rua
a esquina
a praça
o espaço
o verde
o habitante
e o céu

de uma das melhores cidades
do mundo

Parabéns, Curitiba!

Delores Pires
(Por ocasião das festividades dos 290 anos da cidade

sábado, 28 de março de 2015

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.


Jorge de Sousa Braga 



terça-feira, 24 de março de 2015

ANGÚSTIA





O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


segunda-feira, 23 de março de 2015

A CANÇÃO


Arte by Igor Zenin


Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!

Mario Quintana 
- A Cor do Invisível


LILI





Teu riso de vidro
desce as escadas às cambalhotas 
e nem se quebra, 
Lili, 
meu fantasminha predileto! 
Não que tenhas morrido... 
Quem entra num poema não morre nunca
(e tu entraste em muitos...) 
Muita gente até me pergunta quem és... De tão querida
és talvez a minha irmã mais velha
nos tempos em que eu nem havia nascido. 
És Gabriela, a Liane, a Angelina... sei lá! 
És Bruna em pequenina
que eu desejaria acabar de criar.
Talvez sejas apenas a minha infância! 
E que importa, enfim, se não existes... 
Tu vives tanto, Lili! E obrigado, menina, 
pelos nossos encontros, por esse carinho
de filha que eu não tive...


Mario Quintana,
in Lili Inventa o Mundo

A IMAGEM PERDIDA



Como essas coisas que não valem nada
e parecem guardadas sem motivo
(alguma folha seca... uma taça quebrada...)
eu só tenho um valor estimativo.

Nos olhos que me querem é que eu vivo
esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
refletirá meu vulto vago e esquivo...

E cerraram-se os olhos das amadas,
o meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...

E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
muitas vezes, parei... e, nos espelhos,
procuro em vão minha perdida imagem!

Mario Quintana,
in PREPARATIVOS DE VIAGEM





COISAS DO TEMPO




Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas
pelos que se foram: vamos ficando sozinhos
uns dos outros.

Mario Quintana ,
in Caderno H







DESESPERO


 

Não há nada mais triste do que o grito
de um trem no silêncio noturno.
É a queixa de um estranho animal perdido,
único sobrevivente de alguma espécie extinta,
e que corre, corre, desesperado, noite em
fora, como para escapar à sua orfandade e
solidão de monstro.

Mario Quintana,
in Prosa e Verso




UMA ALEGRIA PARA SEMPRE



(para Helena Quintana)

As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo de sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides…
Que importa se – depois de tudo – tenha “ela” partido
casado, mudado, sumido, esquecido, enganado,
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte da sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
– disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.


Mario Quintana,
in 80 anos de poesia


O SILÊNCIO





Há um grande silêncio que está à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta... 
e cala.

Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo




TROVA




Quem as suas mágoas canta,
Quando acaso as canta bem
Não canta só suas mágoas,
Canta a dos outros também....

Mario Quintana,
in A cor do Invisível




DO SABOR DAS COISAS




Por mais raro que seja,
Ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho 
E silencioso amigo...

Mário Quintana
In: Espelho Mágico

SONETO V




Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente, 
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente, 
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste: 
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . . 
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Mario quintana,
in A Rua dos Cataventos



MELANCOLIA




Maneira romântica de ficar triste.

Mario Quintana;
in Da preguiça como método de trabalho



POESIA




Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade,
e é como se agora este pobre, este único, 
este efêmero minuto do mundo estivesse pintado
numa tela, sempre...

Mario Quintana ,
in Porta Giratória