domingo, 19 de outubro de 2014

ANTES QUE A TARDE AMANHEÇA...



Antes que a tarde amanheça
e a noite vire dia
põe poesia no café
e café na poesia.

Paulo Leminski,
in Toda Poesia






RETRATO ANTIGO



Quem é essa que me olha
de tão longe,
com olhos que foram meus?

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho


FLORAL




É isso.É primavera.
estou feliz, em febre.
Outros
politizam suas dores.
Eu
me polenizo
ou polemizo
- com as flores.


Affonso Romano de Sant'Anna,
in Poesia Reunida






segunda-feira, 13 de outubro de 2014

AMO A MANSIDÃO




A mansidão eu amo e sempre que entro
pelos ermos umbrais da escuridão
abro os olhos para enchê-los
da doçura dessa paz.


A mansidão eu amo sobre todas
as coisas deste mundo.


Na quietude das coisas eu descubro
um canto enorme e mudo.
E quando elevo os olhos para o céu
no estremecer das nuvens eu encontro,
na ave que cruza o espaço e até no vento
a doçura que flui da mansidão.

Pablo Neruda,
in "Cadernos de Temuco"

domingo, 12 de outubro de 2014

PROCURA-SE ALGUM LUGAR DO PLANETA



onde a vida seja sempre uma festa
onde o homem não mate nem bicho nem homem
e deixe em paz
as árvores na floresta.
Procura-se algum lugar no planeta
onde a vida seja sempre uma dança
e mesmo as pessoas mais graves
tenham no rosto um olhar de criança.


Roseana Murray
in Classificados Poéticos, ed. Moderna

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

CADA PALAVRA UMA FOLHA




Cada palavra uma folha
no lugar certo. 

Uma flor de vez em quando
no ramo aberto. 

Um pássaro parecia
pousado e perto.

Mas não: que ia e vinha o verso
pelo universo. 

Cecília Meireles.
de Metal Rosicler





sábado, 4 de outubro de 2014

O DOCE CONVÍVIO




Teus silêncios são pausas musicais.

Mario Quintana,
in Caderno H 




DA RELATIVA REALIZAÇÃO



Mover-se com a máxima amplitude
dentro dos próprios limites...

Mario Quintana,
in Caderno H






BIOGRAFIA




Entre o olhar suspeitoso da tia
E o olhar confiante do cão
O menino inventava a poesia...

Mario Quintana,
in Apontamentos de história sobrenatural







QUEM AMA...




Camões escreveu:
"Quem ama inventa as penas em que vive"
"Quem ama inventa as coisas a que ama",
acrescentaria eu, se a tanto me
atrevesse.

Mario Quintana,
in Da preguiça como método de trabalho









XX



Estou sentado sobre a minha mala
No velho bergantim desmantelado...
Quanto tempo, meu Deus, malbaratado
Em tanta inútil, misteriosa escala!

Joguei a minha bússola quebrada
Às águas fundas... E afinal sem norte,
Como o velho Sindbad de alma cansada
Eu nada mais desejo, nem a morte...

Delícia de ficar deitado ao fundo
Do barco, a vos olhar, velas paradas!
Se em toda parte é sempre o Fim do Mundo

Pra que partir? Sempre se chega, enfim...
Pra que seguir empós das alvoradas
Se, por si mesmas, elas vêm a mim?

Mário Quintana
in Rua dos Cataventos

ESSA LEMBRANÇA QUE NOS VEM



Impossível fazer um poema
neste momento.
Não, minha filha, eu não sou música
-sou o instrumento.

Sou, talvez, dessas máscaras ocas
num arruinado momento: 
empresto palavras loucas
à voz dispersa do vento..."


Mário Quintana
In Apontamentos de história sobrenatural

CARRETO



Amar é mudar a alma de casa.

- Mario Quintana,
in: Sapato Florido, 1948.

SE EU FOSSE UM PADRE



Se eu fosse um padre, eu, nos meus sermões,
não falaria em Deus nem no Pecado
- muito menos no Anjo Rebelado
e os encantos das suas seduções,

não citaria santos e profetas:
nada das suas celestiais promessas
ou das suas terríveis maldições...
Se eu fosse um padre eu citaria os poetas,

Rezaria seus versos, os mais belos,
desses que desde a infância me embalaram
e quem me dera que alguns fossem meus!

Porque a poesia purifica a alma
... a um belo poema - ainda que de Deus se aparte -
um belo poema sempre leva a Deus .


Mario Quintana,
in AntologiaPoética





XXIII




Cidadezinha cheia de graça...
Tão pequenina que até causa dó!
Com seus burricos a pastar na praça...
Sua igrejinha de uma torre só...

Nuvens que venham, nuvens e asas,
Não param nunca nem um segundo...
E fica a torre, sobre as velhas casas,
Fica cismando como é vasto o mundo!...

Eu que de longe venho perdido,
Sem pouso fixo (a triste sina!)
Ah, quem me dera ter lá nascido!

Lá toda a vida poder morar!
Cidadezinha... Tão pequenina
Que toda cabe só num olhar...

- Mario Quintana, 
in: A Rua dos Cataventos, 1940.


UMA FRASE PARA ÁLBUM



" Há ilusões perdidas mas tão lindas que a gente as vê
partir como esses balõezinhos de cor que nos
escapam das mãos e desaparecem no céu ..."

Mario Quintana , 
in " A vaca e o Hipogrifo "



UMA SIMPLES ELEGIA



Caminhozinho por onde eu ia andando
e de repente te sumiste,
_o que seria que te aconteceu?
Eu sei.., o tempo... as ervas más... a vida...
Não, não foi a morte que acabou contigo:
Foi a vida.
Ah, nunca a vida fez uma história mais triste
que a de um caminho que se perdeu...

Mario Quintana,
in A Vaca e o hipogrifo


O ENCONTRO




Subitamente
na esquina do poema, duas rimas
olham-se, atônitas, comovidas,
como duas irmãs desconhecidas...

Mario Quintana
In Baú de Espantos


GERMINAL




Planto
com emoção
este verso em teu coração

Mario Quintana
in A Vaca e o Hipogrifo



XXI DAS ILUSÕES



Meu saco de ilusões, bem cheio tive-o.
Com ele ia subindo a ladeira da vida.
E, no entretanto, após cada ilusão perdida...
Que extraordinária sensação de alivio!


Mario Quintana
In: Espelho Mágico




AS VIAGENS




O encanto de viajar está na própria viagem.
A partida e a chegada são meras interrupções
num velho sonho atávico de nomadismo.
Por outro lado, dizem todas as religiões que
estamos apenas de passagem no mundo.
E isto é que faz querermos tanto a esta 
vida passageira.

- Mario Quintana,
in: Da Preguiça como Método de Trabalho, 1987.



O ETERNO ESPANTO




Que haverá com a lua que sempre que a gente 
a olha é com o súbito espanto da primeira vez?

Mario Quintana;
Da preguiça como método de trabalho, 1987



A HARMONIA DAS FORMAS



Antes, elas eram violões. Hoje viraram
violinos. Naturalmente, continuam raríssimos
os Stradivarius...

Mario Quintana,
in Apontamentos de História Sobrenatural


BILHETE



Se tu me amas, ama-me baixinho
Não o grites de cima dos telhados
Deixa em paz os passarinhos
Deixa em paz a mim!
Se me queres,
Enfim
tem de ser bem devagarinho, Amada,
que a vida é breve, e o amor mais breve
ainda...

Mario Quintana
In Melhores Poemas

MÃE




São três letras apenas,
As desse nome bendito:
Três letrinhas,nada mais...
E nelas cabe o infinito
E palavra tão pequena
-confessam mesmo os ateus-
És do tamanho do céu!
E apenas menor do que Deus...

Mario Quintana 
in Lili Inventa o Mundo


PEQUENO POEMA DIDÁTICO



Para Liane dos Santos

O tempo é indivisível. Diz,
Qual o sentido do calendário?
Tombam as folhas e fica a árvore,
Contra o vento incerto e vario.

A vida é indivisível. Mesmo
A que se julga mais dispersa
E pertence a um eterno diálogo
A mais inconseqüente conversa.

Todos os poemas são um mesmo poema,
Todos os porres são o mesmo porre,
Não é de uma vez que se morre...
Todas as horas são horas extremas!

E todos os encontros são adeuses!

Mario Quintana, 
in Apontamentos de História Sobrenatural



AS COISAS



O encanto
sobrenatural
que há
nas coisas da Natureza!
No entanto, amiga,
se nelas algo te dá
encanto ou medo,
não me digas que seja feia
ou má,
e, acaso, singular...
E deixa-me dizer-te em segredo
um dos grandes segredos do mundo:
- Essas coisas que parece
não terem beleza
nenhuma
- é simplesmente porque
não houve nunca quem lhes desse ao menos
um segundo
olhar!

Mario Quintana
- In A cor do invisível

NOTURNO



Não sei por que, sorri de repente
E um gosto de estrela me veio na boca...
Eu penso em ti, em Deus, nas voltas inumeráveis
que fazem os caminhos...

Em Deus, em ti, de novo...

Tua ternura tão simples...

Eu queria, não sei por que, sair correndo descalço
pela noite imensa
E o vento da madrugada me encontraria morto 
junto de um arroio,
Com os cabelos e a fronte mergulhados na água
límpida...
Mergulhados na água límpida, cantante e fresca
de um arroio!

Mário Quintana
in O aprendiz de feiticeiro


DO AMOROSO ESQUECIMENTO



Eu agora, – que desfecho!
Já nem penso mais em ti…
Mas será que nunca deixo
De lembrar que te esqueci?

Mario Quintana
in Espelho Mágico.


O MILAGRE



Dias maravilhosos em que os jornais
vêm cheios de poesia…
E do lábio do amigo brotam palavras
e eterno encanto…
Dias mágicos…
Em que os burgueses espiam,
Através das vidraças dos escritórios,
A graça gratuita das nuvens…

Mário Quintana,
in Antologia Poética

CECÍLIA MEIRELLES



I

Seus poemas desenhavam seu fino hastil
Suas corolas vibrantes como pequeninas violas
(ou era a vibração incessante dos grilos?)
Seus poemas floriam na tapeçaria ondulante dos prados
Onde os colhia a mão das eternamente amadas
(as que morreram jovens são eternamente amadas…)

II

Seus poemas,
Dentre as páginas de um seu livro,
Apareciam sempre de surpresa,
E era como se a gente descobrisse uma folha seca
Um bilhete de outrora
Uma dor esquecida
Que tem agora o lento e evanescente odor do tempo…

III

E seus poemas eram, de repente, como uma prece jamais ouvida
Que nossos lábios recitavam – ó temerosa delícia!
Como se numa língua desconhecida,
Sem querer falassem
Da brevidade
E da
Eternidade da vida…

IV

Ah, aquela a quem seguiam os versos ondulantes 
como dóceis panteras
E deixava por todas as coisas o misterioso reflexo
do seu sorriso;
E que na concha de suas mãos, encantada e aflita recebia
A prata das estrelas perdidas…

V

Nem tudo estará perdido
Enquanto nossos lábios não esquecerem
teu nome: Cecília…

Mario Quintana,
in Antologia Poética

A RUA




A rua é um rio de pessoas e de vozes,
um rio terrível que me vai levando,
mas estou só, como se está na infância...
ou quando a morte vai se aproximando...

No ar, agora, que distante aroma?
Decerto eu sem saber pensei em ti...
E um vôo de andorinha na distância
é a minha saudade que eu te mando.

Mas tu, nesses tumultuoso rio,
não fica nunca ao fundo da lembrança
como no seio azul de um redoma...

Tudo se afasta nessa correnteza
onde uma flor,às vezes, fica presa
e um claro riso sobre as águas dança!

Mario Quintana -
In Baú de Espantos

COISAS DO TEMPO




Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas
pelos que se foram: vamos ficando sozinhos
uns dos outros.

Mario Quintana ,
in Caderno H

DA OBSERVAÇÃO



Não te irrites, por mais que te fizerem...
Estuda, a frio, o coração alheio.
Farás, assim, do mal que eles te querem,
Teu mais amável e sutil recreio...

- Mario Quintana,
in: Espelho Mágico, 1945-1951.





''I''




Escrevo diante da janela aberta.
Minha caneta é cor das venezianas:
Verde!... E que leves, lindas filigranas
Desenha o sol na página deserta!

Não sei que paisagista doidivanas
Mistura os tons... acerta... desacerta...
Sempre em busca de nova descoberta,
Vai colorindo as horas quotidianas...

Jogos da luz dançando na folhagem!
Do que eu ia escrever até me esqueço...
Pra que pensar? Também sou da paisagem...

Vago, solúvel no ar, fico sonhando...
E me transmuto... iriso-me... estremeço...
Nos leves dedos que me vão pintando!

Mário Quintana
in 'A RUA DOS CATAVENTOS'

PAZ




Os caminhos estão descansando...

Mario Quintana,
in A Vaca e o Hipogrifo

A MENINA DANÇA SOZINHA...



A menina dança sozinha
por um momento

A menina dança sozinha
com o vento, com o ar, com
o sonho de olhos imensos…

A forma grácil de suas pernas
ele é que as plasma, o seu par
de ar,
de vento,
o seu par fantasma…

Menina de olhos imensos,
tu, agora, paras,
mas a mão ainda erguida
segura ainda no ar
o hástil invisível
deste poema!

Mario Quintana
Esconderijos do Tempo

PROJETO DE PREFÁCIO




Sábias agudezas... refinamentos...
– não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes de caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um detalhe
Um poema não é também quando paras no fim,
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras.

Mario Quintana 
Baú de Espantos


PRIMAVERA



Primavera cruza o rio
Cruza o sonho que tu sonhas.
Na cidade adormecida
Primavera vem chegando.

Catavento enlouqueceu,
Ficou girando, girando.
Em torno do catavento
Dancemos todos em bando.

Dancemos todos, dancemos,
Amadas, Mortos, Amigos,
Dancemos todos até

Não mais saber-se o motivo...
Até que as paineiras tenham
Por sobre os muros florido.


Mário Quintana
in Antologia Poética 

CANÇÃO DA PRIMAVERA




Um azul do céu mais alto,
Do vento a canção mais pura
Me acordou, num sobressalto,
Como a outra criatura...

Só conheci meus sapatos
Me esperando, amigos fiéis,
Tão afastado me achava
Dos meus antigos papéis!

Dormi, cheio de cuidados
Como um barco soçobrando,
Por entre uns sonhos pesados
Que nem morcegos voejando...

Quem foi que ao rezar por mim
mudou o rumo da vela
Para que eu desperte, assim,
Como dentro de uma tela?

Um azul do céu mais alto,
Do vento a canção mais pura
E agora... este sobressalto...
Esta nova criatura!


Mario Quintana 
de 'Nariz de Vidro'





XXII


Dos nossos males

É sem razão, e é sem merecimento,
Que a gente a sorte maldiz:
Quanto a mim, sempre odiei o sofrimento,
Mas nunca soube ser feliz... 

Mario Quintana
In: Espelho Mágico



LXXXII



 Da agitação da vida

Lida no doido afã!
Vamos! Investe, vai contra os moinhos de vento!
Um dia tu verás que tudo é sombra vã,
Tênue fumo que a morte assopra num momento...

Mario Quintana
In: Espelho Mágico






ESTRANHAS AVENTURAS DA INFÂNCIA



Era um caminho tão pequenino
Que nem sabia aonde ia,
Por entre uns morros se perdia
Que ele pensava que eram montanhas...

Enquanto a tarde, lenta, caia,
Aflitamente o procuramos.
Sozinho assim, aonde iria?
Porém, deixamos para um outro dia...

Perdido e só, nós o deixamos!

E quando, enfim, ali voltamos
Já nada havia, só ervas mas...
Tão vasto e triste sentiste o mundo
Que te achegaste, desamparada...

E foi bem juntos que regressamos,
Ombro com ombro, a mão na mão,
Enquanto, lenta, caía a tarde
E nos espiava a bruxa negra...

E nos seguia a bruxa negra
Que hoje se chama Solidão!


Mario Quintana
In Baú de Espantos








sexta-feira, 3 de outubro de 2014

PERSONAGEM




Teu nome é quase indiferente 
e nem teu rosto já me inquieta. 
A arte de amar é exactamente 
a de se ser poeta. 

Para pensar em ti, me basta 
o próprio amor que por ti sinto: 
és a ideia, serena e casta, 
nutrida do enigma do instinto. 

O lugar da tua presença 
é um deserto, entre variedades: 
mas nesse deserto é que pensa 
o olhar de todas as saudades. 

Meus sonhos viajam rumos tristes 
e, no seu profundo universo, 
tu, sem forma e sem nome, existes, 
silêncio, obscuro, disperso. 

Teu corpo, e teu rosto, e teu nome, 
teu coração, tua existência, 
tudo - o espaço evita e consome: 
e eu só conheço a tua ausência. 

Eu só conheço o que não vejo. 
E, nesse abismo do meu sonho, 
alheia a todo outro desejo, 
me decomponho e recomponho.

Cecília Meireles,
in 'Viagem'

MOTIVO




Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa. 
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.


Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.


Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço
- não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.


Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia que estarei mudo:
- mais nada.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa
Viagem (1939)


SE EU FOSSE APENAS. . .



Se eu fosse apenas uma rosa,
com que prazer me desfolhava,
já que a vida é tão dolorosa
e não te sei dizer mais nada!

Se eu fosse apenas água ou vento,
com que prazer me desfaria,
como em teu próprio pensamento
vais desfazendo a minha vida! 

Perdoa-me causar-te a mágoa
desta humana, amarga demora!
-de ser menos breve do que a água,
mais durável que o vento e a rosa. . .


Cecilia Meireles
In: Retrato Natural


EU SOU ESSA PESSOA A QUEM O VENTO CHAMA



Eu sou essa pessoa, a quem o vento chama,
a que não se recusa a esse final convite,
em máquinas de adeus, sem tentação de volta.

Todo horizonte é um vasto sopro de incerteza.
Eu sou essa pessoa a quem o vento leva:
já de horizonte libertada, mas sozinha.

Se a Beleza sonhada é maior que a vivente,
dizei-me:não quereis ou não sabeis ser sonho?
Eu sou essa pessoa a quem o vento rasga.

Pelos mundos do vento, em meus cílios guardadas
vão as medidas que separam os abraços.
Eu sou essa pessoa a quem o vento ensina:

"Agora és livre, se ainda recordas."


Cecília Meireles
in 'Solombra'










NOTURNO DO AMOR



Vem de manso...de leve...e suave e doce
Como um silêncio estático de prece...
Que a sua vida seja tal qual fosse
Apenas a saudade que me viesse...

Vem de manso...Na névoa da penumbra,
Faze um gesto litúrgico de benção!
A alta noite tristíssima deslumbra
Dos meus olhos nostálgicos, que pensam...

Sugere, mas não fales...Porque a frase
É vã, no amor...Mistério...Sonolência...
O esquecimento, quase...A morte, quase...
Intuições...Irrealismo...Inconsciência...


Cecília Meireles,
In:"Mar absoluto"


DA SOLIDÃO




Estarei só. Não por separada, não por evadida.
Pela natureza de ser só.

No entanto, a multidão tem sua musica,
seu ritmo, seu calor,
e deve ser uma felicidade, às vezes,
ser na multidão o que o peixe é no oceano.
Ah! mas quem sabe das solidões que haverá nessas águas enormes!

Estarei só. Recordarei essas cidades, esses tempos.
Recordarei esses rostos. Pode ser que recorde
alguma palavra.
Nada perturbou o meu estar só. Por vezes, com o rosto nas mãos,
pode ser que sentisse como os desertos amontoavam suas areias
entre meu pensamento e o horizonte.
Mas o deserto tem sua musica,
seu ritmo, seu calor.

Era uma solidão que outrora se levava nos dedos,
como a chave do silencio. Uma solidão de infância
sobre a qual se podia brincar,
como sobre um tapete.
Uma solidão que se podia ouvir, como quem olha para as arvores,
onde há vento.
Uma solidão que se podia ver, provar, sentir,
pensar, sofrer, amar, 
uma solidão como um corpo, fechado sobre a noção que temos de nós:
como a noção que temos de nós.

E andava, e sorria, cumprimentava e fazia discursos,
dava autógrafos, abria a janela, conhecia gavetas,
chaves, endereços, comprava, lia,
recordava, sonhava,
às vezes pensava – Solidão – e logo seguia,
tinha até dinheiro comigo, tinha palavras, também,
que escolhia, dava, usava, recusava...

Solidão – dizia: fechava a tarde de mil portas,
andava por essas fortalezas da noite,
essas escadas, essas plataformas, essas pedras...
e deitava-me sobre o mar, sobre as florestas,
deitava-me assim – aldeias? cidades?
O sono é um límpido deserto – deitava-me nos ares,
onde quer que estivesse deitada.

Deitava-me nessas asas. Ia para outras solidões.

Se me chamares, responderei, mas serei solidão.
Serei solidão, se me esqueceres ou lembrares.
Qualquer coisa que sintas por mim, eu te retribuirei:
como o eco.
Mas és tu que vens e voltas:
a tua solidão e a minha solidão.


Cecília Meireles
In: Poesia Completa

OU ISTO OU AQUILO



Quem sobe nos ares não fica no chão,

quem fica no chão não sobe nos ares.

É uma grande pena que não se possa

estar ao mesmo tempo em dois lugares!

Ou guardo o dinheiro e não compro o doce,

ou compro o doce e gasto o dinheiro.

Ou isto ou aquilo: ou isto ou aquilo . . .

e vivo escolhendo o dia inteiro!

Não sei se brinco, não sei se estudo,

se saio correndo ou fico tranqüilo.
Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.


- Cecília Meireles,
in "Ou Isto ou Aquilo",