sábado, 25 de abril de 2015

POEMA 16



Arte de Leonid Afremov


Sono sobre a chuva
que, entre o céu e a terra,
tece a noite fina.

Tece-a com desenhos
de amigos que falam,
de ruas que voam,
de amor que se inclina,

de livros que se abrem,
de face incompleta
que, inerme, deplora
com palavras mudas
e não raciocina...

Sobre a chuva, o sono:
tão leve, que mira
todas as imagens
e ouve, ao mesmo tempo,
longa, paralela,
a canção divina

dos fios imensos
que, nos teares de água,
entre o céu e a terra,
o tempo separa 
e a noite combina.


Cecília Meireles
In Metal Rosicler





quinta-feira, 23 de abril de 2015

NATUREZA HUMANA


Arte de Graham Gercken

Cheguei. Sinto de novo a natureza
Longe do pandemônio da cidade
Aqui tudo tem mais felicidade
Tudo é cheio de santa singeleza

Vagueio pela múrmura leveza
Que deslumbra de verde e claridade
Mas nada. Resta vívida a saudade
Da cidade em bulício e febre acesa

Ante a perspectiva da partida
Sinto que me arranca algo da vida
Mas quero ir. E ponho-me a pensar

Que a vida é esta incerteza que em mim mora
A vontade tremenda de ir embora
E a tremenda vontade de ficar.


Vinícius de Moraes
In Jardim Noturno


A FLOR DO SONHO




A Flor do Sonho, alvíssima, divina, 
Miraculosamente abriu em mim, 
Como se uma magnólia de cetim 
Fosse florir num muro todo em ruína.

Pende em meu seio a haste branda e fina 
E não posso entender como é que, enfim, 
Essa tão rara flor abriu assim!... 
Milagre... fantasia... ou, talvez, sina...

Ó Flor que em mim nasceste sem abrolhos, 
Que tem que sejam tristes os meus olhos 
Se eles são tristes pelo amor de ti?!...

Desde que em mim nasceste em noite calma, 
Voou ao longe a asa de minh'alma 
E nunca, nunca mais eu me entendi...



 FLORBELA ESPANCA 
In Livro de Mágoas, 1919 


quarta-feira, 22 de abril de 2015

RUÍNAS




Se é sempre Outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair...
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!

E deixa sobre as ruínas crescer heras.
Deixa-as beijar as pedras e florir!
Que a vida é um contínuo destruir
De palácios do Reino de Quimeras!

Deixa tombar meus rútilos castelos!
Tenho ainda mais sonhos para erguê-los
Mais altos do que as águias pelo ar!

Sonhos que tombam! Derrocada louca!
São como os beijos duma linda boca!
Sonhos!... Deixa-os tombar... deixa-os tombar...


Florbela Espanca

domingo, 19 de abril de 2015

FELICIDADE





A felicidade sentava-se todos os dias
no peitoril da janela.

Tinha feições de menino inconsolável.
Um menino impúbere
ainda sem amor para ninguém,
gostando apenas de demorar as mãos
ou de roçar lentamente o cabelo pelas
faces humanas.

E, como menino que era,
achava um grande mistério no seu
próprio nome.


Jorge de Sena, 
in cadernos de poesia








sábado, 18 de abril de 2015

ORAÇÃO DE INVERNO*





Quero viver
a puros e plenos pulmões.
Respirar sem temer
apuros nem desilusões.
 
Quero viver
savanas de caro inverno.
Aspirar ao impossível
tudo que sabe a eterno.
 
Quero viver
viúvo de más astúcias.
Abarcar aldeia e mundo
salva-vidas de alegrias!
 
Quero viver
avesso ao labirinto.
Alvejar roupas, seios e rio
com poemas em claro cio.
 
Quero viver
a Tudo derramar profundo.
Sempre alerta - em fértil
e vasto campo minado.
 
Quero reler
tudo que alheio à sorte
escrevo e ofereço à morte.
Tarefa rica em pretensão:
 
Talvez somente brinquedo;
talvez apenas vã Oração.
 
 
 
*Jairo De Britto, 
em “Dunas de Marfim”


POEMAS MALDITOS*





Poemas malditos
são sempre escritos
como um vendaval
de verdades.
 
Poemas malditos
são sempre escritos
como vielas de voz única.
 
Poemas malditos
são sempre escritos
com suor e simplicidade.
 
Despidos de toda vaidade,
são aqueles, Mundo afora,
escritos em qualquer Idade.
 
Livrai-nos pois os deuses
daqueles poemas mal ditos
que desprezam verdades!
 
 
*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

QUANDO FORES VELHA



Quando fores velha, grisalha, vencida pelo sono,
Dormitando junto à lareira, toma este livro,
Lê-o devagar, e sonha com o doce olhar
Que outrora tiveram teus olhos, e com as suas sombras profundas;

Muitos amaram os momentos de teu alegre encanto,
Muitos amaram essa beleza com falso ou sincero amor,
Mas apenas um homem amou tua alma peregrina,
E amou as mágoas do teu rosto que mudava;

Inclinada sobre o ferro incandescente,
Murmura, com alguma tristeza, como o Amor te abandonou
E em largos passos galgou as montanhas
Escondendo o rosto numa imensidão de estrelas.


William Butler Yeats
(Tradução de José Agostinho Baptista)


quarta-feira, 15 de abril de 2015

SAUDADES




Um sabiá cantou.
Longe, dançou o arvoredo.
Choveram saudades.

Helena Kolody,
in Viagem no Espelho

AZUL





Tropeçou no sol da manhã
e mergulhou no azul do outono.

Helena Kolody
in Viagem no Espelho 

terça-feira, 14 de abril de 2015

LIBERDADE




Aqui nesta praia onde
Não há nenhum vestígio de impureza,
Aqui onde há somente
Ondas tombando ininterruptamente,
Puro espaço e lúcida unidade,
Aqui o tempo apaixonadamente
Encontra a própria liberdade.


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN,
 in MAR NOVO

segunda-feira, 13 de abril de 2015

ECCE HOMO




Sei minha origem: sou a chama
e ao iluminar me consumo,
e o que toco se inflama
e deixo cinzas e fumo.
Certamente sou chama.


Friedrich Nietzsche
in Poesias (1871-1888)

domingo, 12 de abril de 2015

ILHA DE COS





Eu sabia que tinha de haver um sítio
Onde o humano e o divino se tocassem
Não propriamente a terra do sagrado
Mas uma terra para o homem e para os deuses
Feitos à sua imagem e semelhança
Um lugar de harmonia
Com sua tragédia é certo
Mas onde a luz incita à busca da verdade
E onde o homem não tem outros limites
Senão os da sua própria liberdade

Manuel Alegre,
in Chegar aqui

sexta-feira, 10 de abril de 2015

ESTAÇÕES (OUTONO)




Azul no céu o outono;
nas folhas, vermelho
e incerto o coração.
Misturam-se as cores da música
brilhantes no piano
ocres no violoncelo
entre o sim e o não.
Tão longe as cores ficaram
nada ao alcance da mão
esquecidos os nomes, timbres de voz
somos duas a sós:
minha alma no corpo estrangeiro;
passa um vento ligeiro
(leva a minha inspiração?)
Não sei se ouves a tristeza
das pálpebras fechadas
da abandonada beleza
em sendas escondidas
onde andamos. E era vida.
Veio o pasmo e a brandura
desses lábios tão cerrados
sepultura
em seu outono calado.

Dora Ferreira da Silva
In Cartografia do Imaginário 

terça-feira, 7 de abril de 2015

POEMA DA VIDA





Os anos passam,
As coisas não se repetem,
São como os rios
Que seguem o seu curso,
Suas águas correm sem destino
E jamais voltam as nascentes...
Seria tão bom se a existência 
Não fosse semelhante aos rios
Que pudessemos voltar
Voltar pelo menos uma vez,
Às nossas antigas origens,
Às nossas velhas raízes,
Plantar árvores,
Comer frutos,
Vê-las crescerem novamente...
Mas somos passageiros pela terra.
Nascemos como os rios,
Seguimos o nosso curso,
Possuímos enfim uma existência fugaz...
Dirás que tudo não passa de palavras,
De vã filosofia,
Mas é na realidade,
Nós nascemos,
Nós vivemos
E finalmente morremos...
A morte é a maior realidade da vida.


Olympiades G.Corrêa 


REGRESSO À ORIGEM





Neste momento, meu Deus, eu só tenho em minha
alma a perplexidade infinita.
Nada mais sei de mim, nem dos outros, nem do sentido do mundo.
Foi como se tivesse caminhado distraidamente e me
perdesse dos rumos costumeiros
E de repente me encontrasse para além das
fronteiras de meu próprio destino.
Não sei se fiquei mais impuro ou mais puro.
Vejo que os que mais me amam estão me deixando caminhar sozinho.
sentindo-me, talvez, estrangeiro em meio deles.
Vejo que todos os que vinham comigo na matinal
alegria das primeiras jornadas
deixaram de deslumbrar-se com a vida.
E perderam o senso do mistério,
e passaram a estranhar os meus olhos, a minha fala, os meus gestos.
Vejo que todos subitamente serenaram 
e ficaram entregues às suas quotidianas tarefas numa aceitação tranqüila,
como se tivessem todos recebido o seu quinhão
justo de amor, de beleza e de bondade,
ao passo que eu vou na mesma sede imitigada, na
mesma procura aflita de sempre.
Não sei se fiquei mais puro ou mais impuro.
Sei que estou caminhando, solitário, para além das fronteiras do meu destino.
E sinto crescer em mim
esta vontade absurda
de descansar de mim mesmo.


Tasso Da Silveira
In: Poemas De Antes


segunda-feira, 6 de abril de 2015

SPLEEN




Quando o cinzento céu, como pesada tampa,
Carrega sobre nós, e nossa alma atormenta,
E a sua fria cor sobre a terra se estampa,
O dia transformado em noite pardacenta;

Quando se muda a terra em úmida enxovia
D'onde a Esperança, qual morcego espavorido,
Foge, roçando ao muro a sua asa sombria,
Com a cabeça a dar no teto apodrecido;

Quando a chuva, caindo a cântaros, parece
D'uma prisão enorme os sinistros varões,
E em nossa mente em febre a aranha fia e tece,
Com paciente labor, fantásticas visões,

- Ouve-se o bimbalhar dos sinos retumbantes,
Lançando para os céus um brado furibundo,
Como os doridos ais de espíritos errantes
Que a chorar e a carpir se arrastam pelo mundo;

Soturnos funerais deslizam tristemente
Em minh'alma sombria. A sucumbida Esp'rança,
Lamenta-se, chorando; e a Angústia, cruelmente,
Seu negro pavilhão sobre os meus ombros lança!


Charles Baudelaire, in "As Flores do Mal"
Tradução de Delfim Guimarães


CHOVE, DE MANSO, NA CIDADE




Chora em meu coração
como chove lá fora.
Porque esta lassidão
me invade o coração?

Oh! ruído bom da chuva
no chão e nos telhados!
Para uma alma viúva,
oh! o canto da chuva!

E chora sem razão
meu coração amargo.
Algum desgosto? - Não!
É um pranto sem razão.

E essa é a maior dor,
não saber bem por que,
sem ódio sem amor,
eu sinto tanta dor.

Arthur Rimbaud

quarta-feira, 1 de abril de 2015

ESTAÇÕES




Aprendi os cheiros
Do alecrim e da hera
E ao azul do céu
Chamei Primavera.


Encontrei um fruto
Na concha da mão
E à sede da água
Dei um nome: Verão.


Descobri o sol com olhos de sono,
À tristeza das folhas dei o nome de Outono
Aprendi os modos do bico mais terno:
Um cão de peluche
Com o frio do Inverno.


Juntei as estações
Com pés de magia
E à soma das quatro
Chamei poesia.


José Jorge Letria

domingo, 29 de março de 2015

UMA ANIVERSARIANTE ILUSTRE




Pode existir
a mais bonita rua
na melhor cidade do mundo

Pode existir
a mais formosa esquina
na melhor cidade do mundo

Pode existir 
o mais funcional espaço
na melhor cidade do mundo

Pode existir
o mais límpido verde
na melhor cidade do mundo

Pode existir
o mais ilustre habitante
na melhor cidade do mundo

Pode existir 
o mais notável céu
na melhor cidade do mundo

Mas 
nenhuma rua 
tem a mesma poesia

nenhuma esquina
tem o mesmo fascínio

nenhuma praça
tem a mesma sedução

nenhum espaço
tem o mesmo encanto

nenhum verde 
tem o mesmo tom

nenhum habitante
tem a mesma simpatia

nenhum céu
tem o mesmo deslumbramento

Que a rua
a esquina
a praça
o espaço
o verde
o habitante
e o céu

de uma das melhores cidades
do mundo

Parabéns, Curitiba!

Delores Pires
(Por ocasião das festividades dos 290 anos da cidade

sábado, 28 de março de 2015

RAÍZES




Quem me dera ter raízes,
que me prendessem ao chão.
Que não me deixassem dar
um passo que fosse em vão.

Que me deixassem crescer
silencioso e erecto,
como um pinheiro de riga,
uma faia ou um abeto.

Quem me dera ter raízes,
raízes em vez de pés.
Como o lodão, o aloendro,
o ácer e o aloés.

Sentir a copa vergar,
quando passasse um tufão.
E ficar bem agarrado,
pelas raízes, ao chão.


Jorge de Sousa Braga 



terça-feira, 24 de março de 2015

ANGÚSTIA





O sol se foi embora e a lagoa esquecida
se voltou para dentro de si mesma.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


segunda-feira, 23 de março de 2015

A CANÇÃO


Arte by Igor Zenin


Enquanto os teus olhos ainda estão cerrados sobre os
mistérios noturnos da alma
E o dia ainda não abriu as suas pálpebras,
Nasce a canção dentro de ti como um rumor de águas,
Nasce a canção como um vento despertando as folhagens...
Não vem de súbito, vem de longe e de muito tempo.
Mas - agora - estás desperto na cidade e não sabes,
Entre tantos rumores e motores,
Como é que tens de súbito esta serenidade
De quem recebesse uma hóstia em pleno inferno.
Deve ser de versos que leste e nem te lembras,
De telas, de estátuas que viste,
De um sorriso esquecido...
E destas sementes de beleza
E que
- às vezes -
No chão do rumoroso deserto em que pisas,
Brota o milagre da canção!

Mario Quintana 
- A Cor do Invisível


LILI





Teu riso de vidro
desce as escadas às cambalhotas 
e nem se quebra, 
Lili, 
meu fantasminha predileto! 
Não que tenhas morrido... 
Quem entra num poema não morre nunca
(e tu entraste em muitos...) 
Muita gente até me pergunta quem és... De tão querida
és talvez a minha irmã mais velha
nos tempos em que eu nem havia nascido. 
És Gabriela, a Liane, a Angelina... sei lá! 
És Bruna em pequenina
que eu desejaria acabar de criar.
Talvez sejas apenas a minha infância! 
E que importa, enfim, se não existes... 
Tu vives tanto, Lili! E obrigado, menina, 
pelos nossos encontros, por esse carinho
de filha que eu não tive...


Mario Quintana,
in Lili Inventa o Mundo

A IMAGEM PERDIDA



Como essas coisas que não valem nada
e parecem guardadas sem motivo
(alguma folha seca... uma taça quebrada...)
eu só tenho um valor estimativo.

Nos olhos que me querem é que eu vivo
esta existência efêmera e encantada...
Um dia hão de extinguir-se e, então, mais nada
refletirá meu vulto vago e esquivo...

E cerraram-se os olhos das amadas,
o meu nome fugiu de seus lábios vermelhos,
nunca mais, de um amigo, o caloroso abraço...

E, no entretanto, em meio desta longa viagem,
muitas vezes, parei... e, nos espelhos,
procuro em vão minha perdida imagem!

Mario Quintana,
in PREPARATIVOS DE VIAGEM





COISAS DO TEMPO




Com o tempo, não vamos ficando sozinhos apenas
pelos que se foram: vamos ficando sozinhos
uns dos outros.

Mario Quintana ,
in Caderno H







DESESPERO


 

Não há nada mais triste do que o grito
de um trem no silêncio noturno.
É a queixa de um estranho animal perdido,
único sobrevivente de alguma espécie extinta,
e que corre, corre, desesperado, noite em
fora, como para escapar à sua orfandade e
solidão de monstro.

Mario Quintana,
in Prosa e Verso




UMA ALEGRIA PARA SEMPRE



(para Helena Quintana)

As coisas que não conseguem ser olvidadas
continuam acontecendo.
Sentimo-las como da primeira vez,
sentimo-las fora do tempo,
nesse mundo de sempre
onde as datas não datam.
Só no mundo do nunca existem lápides…
Que importa se – depois de tudo – tenha “ela” partido
casado, mudado, sumido, esquecido, enganado,
ou que quer que te haja feito, em suma?
Tiveste uma parte da sua vida que foi só tua e, esta,
ela jamais a poderá passar de ti para ninguém.
Há bens inalienáveis, há certos momentos que,
ao contrário do que pensas,
fazem parte de tua vida presente
e não do teu passado.
E abrem-se no teu sorriso mesmo quando, deslembrado deles,
estiveres sorrindo a outras coisas.
Ah, nem queiras saber o quanto deves à ingrata criatura…
A thing of beauty is a joy for ever
– disse, há cento e muitos anos,
um poeta inglês que não conseguiu morrer.


Mario Quintana,
in 80 anos de poesia


O SILÊNCIO





Há um grande silêncio que está à escuta...
E a gente se põe a dizer inquietamente qualquer coisa,
qualquer coisa, seja o que for,
desde a corriqueira dúvida sobre se chove ou não chove hoje
até a tua dúvida metafísica, Hamleto!
E, por todo o sempre, enquanto a gente fala, fala, fala
o silêncio escuta... 
e cala.

Mário Quintana
In: Esconderijos do Tempo




TROVA




Quem as suas mágoas canta,
Quando acaso as canta bem
Não canta só suas mágoas,
Canta a dos outros também....

Mario Quintana,
in A cor do Invisível




DO SABOR DAS COISAS




Por mais raro que seja,
Ou mais antigo,
Só um vinho é deveras excelente:
Aquele que tu bebes calmamente
Com o teu mais velho 
E silencioso amigo...

Mário Quintana
In: Espelho Mágico

SONETO V




Na minha rua há um menininho doente.
Enquanto os outros partem para a escola,
Junto à janela, sonhadoramente, 
Ele ouve o sapateiro bater sola.

Ouve também o carpinteiro, em frente, 
Que uma canção napolitana engrola.
E pouco a pouco, gradativamente,
O sofrimento que ele tem se evola. . .

Mas nesta rua há um operário triste: 
Não canta nada na manhã sonora
E o menino nem sonha que ele existe.

Ele trabalha silenciosamente. . . 
E está compondo este soneto agora,
Pra alminha boa do menino doente. . .

Mario quintana,
in A Rua dos Cataventos



MELANCOLIA




Maneira romântica de ficar triste.

Mario Quintana;
in Da preguiça como método de trabalho



POESIA




Às vezes tudo se ilumina de uma intensa irrealidade,
e é como se agora este pobre, este único, 
este efêmero minuto do mundo estivesse pintado
numa tela, sempre...

Mario Quintana ,
in Porta Giratória





JARDIM INTERIOR



Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mário Quintana,
in A Cor do Invisível, 1989



"MEU BONDE PASSA PELO MERCADO




O que há de bom mesmo não está à venda, 
O que há de bom não custa nada. 
Este momento é a flor da eternidade! 
Minha alegria aguda até o grito... 
Não essa alegria alvar das novelas baratas, 
Pois minha alegria inclui também minha tristeza 
- a nossa 
Tristeza... 
Meu companheiro de viagem, sabes? 
Todos os bondes vão para o Infinito!"


Mario Quintana 
- Preparativos de Viagem 1987


TÃO SIMPLES





A verdadeira coragem consiste, apenas,
em não nos importarmos com a opinião dos outros...
Mas como custa!

Mario Quintana 
Da preguiça como método de trabalho

domingo, 22 de março de 2015

DO MEU OUTONO




O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem...


O outono vai chegar... O outono vem tão cedo!
Irão morrer flores e estrelas, como as crianças
Tristes e mudas, que impressionam, fazem medo?


O outono vai chegar... Têm vozes do passado
As horas loiras, a cantarem vagarosas,
Com ressonâncias de convento abandonado...


Vozes de sonho, vozes lentas, do passado,
Falando coisas nebulosas, nebulosas...


O outono vai chegar, como um poeta descrente
Que funerais desilusórios acompanha...


O outono vai chegar... Neva a névoa do outono...
Perdem-se astros sem luz... Anda em choro a folhagem...
Há desesperos silenciosos de abandono...


O outono vai chegar... Neva a nevoa do outono...
E eu sofro a angustia irremediável da paisagem... 



Cecília Meireles
In: Baladas para El-Rei (1925)







RUA



Procuro a rua
que ainda me resta:
é longa, é alta,
não é essa.
Esqueço o nome,
por sono ou pressa:
é alta, é clara,
mas não é esta.
Em cada esquina
havia festa:
é clara, é vasta,
não é essa.
Nunca me lembro
onde começa:
é vasta, é longa,
mas não é esta.
Rua que não
se manifesta:
é longa, é alta,
não é essa.

Cecília Meireles,
in Poesia Completa
Sonhos


EXCERTO





(...) “Minha infância de menina sozinha deu-me duas 
coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas
para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área
de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios
inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os 
relógios revelaram o segredo do seu mecanismo,
e as bonecas o jogo do seu olhar. (...)

Cecília Meireles
in Obra Poética, Rio de Janeiro, Nova Aguillar





POEMA DO BECO




Que importa a paisagem, a Glória,
 a baía, a linha do horizonte? 
— O que eu vejo é o beco. 


 MANUEL BANDEIRA 
In Estrela da Manhã, 1936

AS GARÇAS



As garças
quando alçam
se entardecem.

Manoel de Barros,
in Poesia Completa


terça-feira, 17 de março de 2015

III


 

O sonho é a ponte
Que vai do infinito ao infinito,
É a medida sem comparação,
É a presença do que se imagina.

Sonhar talvez só seja
Reconhecer o que já nem a alma sinta
Nem o próprio pensamento veja.

Ana Hatherly
In Um Ritmo Perdido




sexta-feira, 13 de março de 2015

15


Foto by Jussara M. Saade Teixeira



Toda uma eternidade se escoou
antes que estas rosas abrissem.
E toda uma eternidade se escoará
depois que elas fenecerem de todo.
Mas no seu fugitivo instante
de milagre e esplendor

elas são um lampejo
de beleza infinita



Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba


terça-feira, 10 de março de 2015

APOTEOSE



No horizonte profundo
mãos invisíveis suspenderam
a cortina sem fim das trevas mortas...

e cem lâmpadas claras se acenderam!

...e a luz radiosa entrou pelas cem
portas do Palácio do Mundo...


Tasso da Silveira,
in Canções à Curitiba
& outros poemas

domingo, 8 de março de 2015

AS MULHERES SÃO MAIS FORTES




 Para começar, gosto das mulheres. Acho que elas são mais fortes,
 mais sensíveis e que têm mais bom senso que os homens.
 Nem todas as mulheres do mundo são assim, mas digamos que é mais
 fácil encontrar qualidades humanas nelas do que no género
 masculino. Todos os poderes políticos, económicos, militares
 são assunto de homens. Durante séculos, a mulher teve de pedir
 autorização ao seu marido ou ao seu pai para fazer fosse o que
 fosse. Como é que pudemos viver assim tanto tempo condenando 
 metade da humanidade à subordinação e à humilhação?

José Saramago, in 'L'Orient le Jour (2007)'

terça-feira, 3 de março de 2015

SONETO A QUATRO MÃOS




Tudo de amor que existe em mim foi dado. 
Tudo que fala em mim de amor foi dito. 
Do nada em mim o amor fez o infinito 
Que por muito tornou-me escravizado.

Tão pródigo de amor fiquei coitado 
Tão fácil para amar fiquei proscrito. 
Cada voto que fiz ergueu-se em grito 
Contra o meu próprio dar demasiado.

Tenho dado de amor mais que coubesse 
Nesse meu pobre coração humano 
Desse eterno amor meu antes não desse.

Pois se por tanto dar me fiz engano 
Melhor fora que desse e recebesse 
Para viver da vida o amor sem dano.

Vinícius de Moraes e Paulo Mendes Campos,
in Poesia completa e Prosa


sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

SONETO DO DESMANTELO AZUL



 
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas,
 
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
 
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
 
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul.
Azul.
 
 
Carlos Pena Filho
 
 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EU ESTOU AQUI!



A divindade se foi,
como tanta ilusão da mocidade.
E embora perdido, sem novelo,
nas masmorras deste pesadelo,
hoje ao menos sei: homem humano,
brasileiro, precário,
escravo sou e por muitos anos,
ainda o serei. Mas a saída
não esqueci: lá, onde a luz
espera aqueles que não traíram
o melhor de si.
E ao pesadelo, aos suores frios,
ao terror da noite
e Deus minotauros, respondo
aos gritos, em nome
de todos os aflitos:
eu sou um homem!
eu estou aqui!


Eduardo Alves da Costa,
in Poesia Reunida

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OBJETO SUJEITO




você nunca vai saber 
quanto custa uma saudade 
o peso agudo no peito 
de carregar uma cidade 
pelo lado de dentro 
como fazer de um verso 
um objeto sujeito 
como passar do presente 
para o pretérito perfeito 
nunca saber direito 
você nunca vai saber 
o que vem depois de sábado 
quem sabe um século 
muito mais lindo e mais sábio 
quem sabe apenas 
mais um domingo 
você nunca vai saber 
e isso é sabedoria 
nada que valha a pena 
a passagem prá pasárgada 
xanudu ou shangrilá 
quem sabe a chave 
de um poema 
e olha lá…

Paulo Leminski,
in Toda Poesia