sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

SONETO DO DESMANTELO AZUL



 
Então, pintei de azul os meus sapatos
por não poder de azul pintar as ruas,
depois, vesti meus gestos insensatos 
e colori as minhas mãos e as tuas,
 
Para extinguir em nós o azul ausente
e aprisionar no azul as coisas gratas,
enfim, nós derramamos simplesmente
azul sobre os vestidos e as gravatas.
 
E afogados em nós, nem nos lembramos
que no excesso que havia em nosso espaço
pudesse haver de azul também cansaço.
 
E perdidos de azul nos contemplamos
e vimos que entre nós nascia um sul
vertiginosamente azul.
Azul.
 
 
Carlos Pena Filho
 
 

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

EU ESTOU AQUI!



A divindade se foi,
como tanta ilusão da mocidade.
E embora perdido, sem novelo,
nas masmorras deste pesadelo,
hoje ao menos sei: homem humano,
brasileiro, precário,
escravo sou e por muitos anos,
ainda o serei. Mas a saída
não esqueci: lá, onde a luz
espera aqueles que não traíram
o melhor de si.
E ao pesadelo, aos suores frios,
ao terror da noite
e Deus minotauros, respondo
aos gritos, em nome
de todos os aflitos:
eu sou um homem!
eu estou aqui!


Eduardo Alves da Costa,
in Poesia Reunida

sábado, 21 de fevereiro de 2015

OBJETO SUJEITO




você nunca vai saber 
quanto custa uma saudade 
o peso agudo no peito 
de carregar uma cidade 
pelo lado de dentro 
como fazer de um verso 
um objeto sujeito 
como passar do presente 
para o pretérito perfeito 
nunca saber direito 
você nunca vai saber 
o que vem depois de sábado 
quem sabe um século 
muito mais lindo e mais sábio 
quem sabe apenas 
mais um domingo 
você nunca vai saber 
e isso é sabedoria 
nada que valha a pena 
a passagem prá pasárgada 
xanudu ou shangrilá 
quem sabe a chave 
de um poema 
e olha lá…

Paulo Leminski,
in Toda Poesia

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

O GATO TRANQUILO




Ei-lo, quieto, a cismar, como em grave sigilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos,
onça que não cresceu, hoje é um gato tranqüilo.
A sua vida é um "manso lago", sem escolhos...

Não ama a lua, nem telhado a velho estilo.
De uma rica almofada entre os suaves refolhos,
prefere ronronar, em gracioso cochilo,
vendo tudo através a cor verde dos olhos.

Poderia ser mau, fosforescente espanto,
pequenino terror dos pássaros; no entanto,
se fez um professor de silêncio e virtude.

Gato que sonha assim, se algum dia o entenderdes,
vereis quanto é feliz uma alma que se ilude,
e olha a vida através a cor de uns olhos verdes.


Cassiano Ricardo

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

PARA ALÉM DA CURVA DA ESTRADA...




Para além da curva da estrada 
talvez haja um poço, e talvez um castelo, 
e talvez apenas a continuação da estrada. 
Não sei nem pergunto. 
Enquanto vou na estrada antes da curva 
só olho para a estrada antes da curva, 
porque não posso ver senão a estrada antes da curva. 
De nada me serviria estar olhando para outro lado 
e para aquilo que não vejo. 
Importemo-nos apenas com o lugar onde estamos. 
Há beleza bastante em estar aqui e não noutra parte qualquer. 
Se há alguém para além da curva da estrada, 
esses que se preocupem com o que há para além da curva da estrada. 
Essa é que é a estrada para eles. 
Se nós tivermos que chegar lá, quando lá chegarmos saberemos. 
Por ora só sabemos que lá não estamos. 
Aqui há só a estrada antes da curva, e antes da curva 
há a estrada sem curva nenhuma. 


Alberto Caeiro, em "Poemas Inconjuntos" 
Heterônimo de Fernando Pessoa

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

CARNAVAL




Com os teus dedos feitos de tempo silencioso,
Modela a minha mascara, modela-a...
E veste-me essas roupas encantadas
Com que tu mesmo te escondes, ó oculto!

Põe nos meus lábios essa voz
Que só constrói perguntas,
E, à aparência com que me encobrires,
Dá um nome rápido, que se possa logo esquecer...

Eu irei pelas tuas ruas,
Cantando e dançando...
E lá, onde ninguém se reconhece,
Ninguém saberá quem sou,
À luz do teu Carnaval...

Modela a minha mascara!
Veste-me essas roupas!

Mas deixa na minha voz a eternidade
Dos teus dedos de silencioso tempo...
Mas deixa nas minhas roupas a saudade da tua forma...
E põe na minha dança o teu ritmo,
Para me conduzir...

Cecília Meireles
Dispersos (1918-1964)


AS BELAS, AS PERFEITAS MÁSCARAS




As belas, as perfeitas máscaras de perfil severo
Que a morte, no silêncio, esculpe,
Encheram-se de uma estranha claridade...
Que anjos tocam, através do mundo e das estrelas,
Através dos sensíveis rumores,
O canto grave dos violoncelos profundos?
Alma perdida, vagabunda, Messalina sonâmbula,
insaciada...


Que procuras na noite morta, Alma transviada,
Com tuas mãos vazias e tristes?
Cantam os violoncelos... A noite sobe como um
balão...


Meus olhos vão ficando cada vez mais lúcidos...
Soluçam os violoncelos... Ah,
Como é gelado o teu lábio,
Pura estrela da manhã!



Mario Quintana;
in Aprendiz de Feiticeiro, 1950

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

NASCENTE AZUL


imagem by Igor Zenin


O meu mais infante e puro Amor
repousa além das mais próximas estrelas!
 
Caminha altivo e feliz, sobre todos
os cardos e engodos – origem da Dor.
 
Ele sabe o quanto lhe amo, o quanto
lhe quero; quanto lhe espero encontrar.
 
Sabe que um manso amanhecer haverá:
Capaz de nos reunir em congresso solar.
 
O meu mais infante e puro Amor
resgata, a cada dia, nossa cúmplice idade.
 
Assim cultivamos e mantemos harmonia
e alvo: o claro encontro noutra Cidade.
 
Sabemos que Aquém e Além não existem!
Nosso Tempo é doce brevidade – Alegria.
 
De pai para filho, um anoitecer não há:
Rapaz, cultiva o jardim de Luz em Nosso Lar.

 
 
*Jairo De Britto,
 em “Dunas de Marfim”
(Vitória, Espírito Santo/ Brasil - 28/12/2014)

SONHO, VIGÍLIA, NOITE, MADRUGADA...






Sonho, vigília, noite, madrugada?
Um a um, desfolhei os sete véus,
e adormecido o corpo, a alma acordada,
um a um, escalei os sete céus.

Sem limites de tempo nem espaço,
quanto tempo durou minha viagem?
Andei mundos sem dor e sem cansaço,
ficou, em meu lugar, a minha imagem.

Agora, de regresso, cumpro a pena.
Tudo esqueci dessa abismal distância
mas algo é diferente: volto à arena
com uma nova inocência, um gosto a infância.

Serena, com uma paz desconhecida,
aceito, sem revolta, a humana sorte:
viver, da Vida, esta pequena vida,
morrer, da Morte, esta pequena morte.



Fernanda de Castro,
in Poesia II





sábado, 14 de fevereiro de 2015

NUVENS (I)



Não há uma só coisa que não seja
nuvem. Assim são essas catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo alisa. A Odisséia, veja,
muda como o mar; há algo distinto
a cada vez que a abrimos. Seu velho
rosto já é outro, visto no espelho,
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A volumosa
nuvem que se desmancha no poente
é a nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte em outra rosa.
Você é nuvem, mar, esquecimento.
E é o que perdeu a cada momento.

Jorge Luis Borges
(Tradução : Marcelo Tápia)


SURPRESAS




Este menino tem sempre
cinquenta surpresas nos bolsos:
uma pedrinha encardida que,
diz ele, dá sorte na vida.
Uma bala amassada
que para alguma emergência
ele traz guardada.
Uma viagem de volta ao mundo
em um segundo
e uma entrada (permanente)
para o circo que fica montado
dentro de seu pensamento.


Roseana Murray,
in No Mundo da Lua

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

“BATISMO”




Mergulhei num mar de sonho
E me fiz azul.

Batizei-me...


Adélia Maria Woellner,
in Sons do Silêncio

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

OU... OU




A moça atrás da vidraça 
espia o moço passar. 
O moço nem viu a moça, 
ele é de outro lugar. 

O que a moça quer ouvir 
o moço sabe contar: 
ah, se ele a visse agora, 
bem que havia de parar. 

Atrás da vidraça, a moça 
deixa o peito suspirar. 
O moço passou depressa, 
ou a vida devagar? 


 JOÃO GUIMARÃES ROSA 
In Ave, Palavra, 1970 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

APRENDIZ DE VIAJANTE




 
Um dia li num livro:
«viajar cura a melancolia».
 
Creio que, na altura, acreditei no que lia.
Estava doente, tinha quinze anos.
Não me lembro da doença que me levara à cama,
recordo apenas a impressão que me causara,
então, o que acabara de ler.
Os anos passaram - como se apagam as estrelas cadentes
e, ainda hoje, não sei se viajar cura a melancolia. No entanto,
persiste em mim aquela estranha impressão de que lera uma predestinação.
 
A verdade é que desde os quinze anos nunca mais parei de viajar.
Atravessei cidades inóspitas, perdi-me entre mares e desertos,
mudei de casa quarenta e quatro vezes e conheci corpos que deambulavam pela vaga noite...
Avancei sempre, sem destino certo.
Tudo começou a seguir àquela doença.
Era ainda noite fechada. Levantei-me e parti.
Fui em direcção ao mar. Segui a rebentação das ondas,
apanhei conchas, contornei falésias; afastei-me de casa o mais que pude.
Vi a manhã erguer-se, branca, e envolver uma ilha;
vi crepúsculos e noite sobre um rio, amei a existência.
Dormia onde calhava; no meio das dunas, enroscado no tojo,
como um animal; dormia num pinhal ou onde me dessem abrigo,
em celeiros, garagens abandonadas, uma cama...
e quando regressei, com a ânsia do eterno viajante dentro de mim.
Hoje sei que o viajante ideal é aquele que, no decorrer da vida,
se despojou das coisas materiais e das tarefas quotidiana.
Aprendeu a viver sem possuir nada, sem  um modo de vida.
Caminha, assim, com a leveza, de quem abandonou tudo.
Deixa o coração apaixonar-se pelas paisagens enquanto a alma,
no puro sopro da madrugada, se recompõe das aflições da cidade.
A pouco e pouco, aprendi que nenhum viajante vê o que os outros viajantes,
ao passarem pelos mesmos lugares, vêem.
O olhar de cada um, sobre as coisas do mundo é único,
não se confunde com nenhum outro.
Viajar, se não cura a melancolia, pelo menos,
purifica. Afasta o espírito do que é supérfluo e inútil;
e o corpo reencontra a harmonia perdida - entre o homem e a terra.
O viajante aprendeu, assim, a cantar a terra, a noite e a luz,
os astros, as águas, os peixes e a treva, os peixes, os pássaros e as plantas.
Aprendeu a nomear o mundo.
Separou com uma linha de água o que nele havia de sedentário daquilo que era nómada;
sabe que o homem não foi feito para ficar quieto.
A sedentarização empobrece-o, seca-lhe o sangue,
mata-lhe a alma - estagna o pensamento.
Por tudo isto, o viajante escolheu o lado nómada da linha de água.
Vive ali, e canta - sabendo que a vida não terá sido um abismo,
se conseguir que o seu canto, ou estilhaços dele,
o una de novo ao Universo.
 
 
Al berto
em Anjo Mudo

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

DECEPÇÃO





Ando muito decepcionado com os homens
e comigo. 
Com minha geração, em especial. 
Íamos salvar o mundo
e falhamos. 
Alguns ainda tentam,
Não me iludem. 
Sem dúvida, merecíamos melhor sorte.
Nós –-- os ilustres fracassados
--- e o povo
que nem se dá conta
que tínhamos projetos ótimos para redimi-lo.


Affonso Romano de Sant'Anna


segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

É POSSÍVEL




É possível que já não haja pássaros
a esvoaçar em torno das palavras
com que calei
o desespero das manhãs
quando tinha do cosmos
uma visão romântica.
Hoje nasce-me no olhar
uma luz quase cruel
com que ilumino
a linha de sombra
que me cerca as mãos.


Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

domingo, 1 de fevereiro de 2015

PELAS LARGAS JANELAS ENTRA A NOITE...





Pelas largas janelas entra a noite quieta e um cheiro de frutos maduros,
Pelas janelas abertas chega até nós um perfume frio de estrelas.
Pelas janelas abertas penetra a mansa poesia dos caminhos, das
viagens noturnas com pássaros dormindo nas ramadas...

Oh!o sossego do lampião na mesa tosca,
E o sorriso do amor sobre os postais da parede!

Onde a música não chega, aí estaremos.
Onde o repouso se estender nascendo pelas madrugadas aí estaremos.
Estaremos confundidos pelos ramos virginais e pela nudez das campinas.

Estaremos misturados com os passarinhos das cercas.
Os ruídos dos trens cortarão nossos ouvidos.
Mas as nostalgias não estarão mais em nós,
Porque seremos simples como a noite,
Como a grande noite resinosa e infinita.

Augusto Frederico Schmidt,
in Coleção Melhores Poemas,
 seleção de Ivan Marques


ONDE ESTÃO

   



Onde estão as chaves
Que abriam os portões
Os quartos, as portas das casas
De outrora?

Onde estão as chaves?

Onde estão as casas
As chácaras, os sobrados,
Os pequenos quintais,
Os "chalets"
De outrora?

Onde estão as casas?

Onde estão os seres
Que esperávamos
Ansiosos
Na antecipação da infância?

Onde estão os seres?

Onde estão as amadas
Com as suas bolsas escolares
As suas merendas
E os seus segredos?

Onde estão as amadas?

Onde estão os medos...
Os pecados
Inconfessáveis
Os pressentimentos
As mãos inquietas
Pousando sobre
O incerto destino?

Onde estão os medos?

- Tudo isso se foi
Pelo caminho do frio.

Augusto Frederico Schmidt

sábado, 31 de janeiro de 2015

A CIDADE




A cidade designa-se pelo desassossego
impregnado de histórias errantes.
Multidão anónima, individual, insondável.
Geografia de uma orfandade interior.
Paradoxal labirinto de aves migratórias.
Nenhum caminhante se esquiva à nitidez
da noite sitiada pela própria sombra.
Pé ante pé, a intimidade refugia-se
nos olhares povoados de afeição
e desdiz o rumor do medo
com um gesto de aconchegar palavras.
A cidade é o epicentro de uma confidência
partilhada por quem sabe manipular o silêncio.


Graça Pires
De Labirintos, 1997

INTRUSÃO




O passado não reconhece o seu lugar:
está sempre presente...

Mario Quintana
In: Na volta da Esquina

XII


Imagem by Igor Zenin


Olhar a realidade face a face!
viver! (mas como se a gente sonhasse...)


Onestaldo de Pennafort,
in Poesia


 

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

APESAR DA SEDE



Tudo podia ser mais simples.
Mas a infância fica tão longe
e os espelhos começaram
a gritar-me uma inocência
que deixou de ser minha
para sempre.
O que quero dizer
acompanha, devagar,
o movimento do sol.
E são cada vez mais lentos
os passos que me levam
na direcção das nascentes.
Apesar da sede.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

EU OUÇO MÚSICA




Eu ouço música como quem apanha chuva:
resignado
e triste
de saber que existe um mundo
do Outro Mundo...

Eu ouço música como quem está morto
e sente já
um profundo desconforto
de me verem ainda neste mundo de cá...

Perdoai,
maestros,
meu estranho ar!

Eu ouço música como um anjo doente
que não pode voar.


Mario Quintana,
in Apontamentos de Historia Sobrenatural




OS SILÊNCIOS




Não é possível amizade quando dois
silêncios não se combinam.

Mario Quintana 
- Porta Giratória 

EXAUSTO




Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o sono profundo das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.


Adélia Prado
In: 'Bagagem'

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

FORAM EMBORA OS PÁSSAROS




Foram embora os pássaros.
Foram embora,
procurando um tempo
onde a luz deflagre em suas asas.
O seu inevitável regresso
há-de acompanhar
a rotação dos ventos.
E quando, nos meus ombros,
nenhum excesso de solidão
me mutilar os braços,
eles hão-de chegar, de novo,
como um incêndio.
Os pássaros.

Graça Pires
De Uma extensa mancha de sonhos, 2008

sábado, 24 de janeiro de 2015

OLHA-ME RINDO UMA CRIANÇA



Olha-me rindo uma criança
E na minha alma madrugou. 
Tenho razão, tenho esperança 
Tenho o que nunca bastou.

Bem sei. Tudo isto é um sorriso 
Que e nem sequer sorriso meu. 
Mas para meu não o preciso 
Basta-me ser de quem mo deu.

Breve momento em que um olhar 
Sorriu ao certo para mim... 
És a memória de um lugar, 
Onde já fui feliz assim.



Fernando Pessoa



terça-feira, 20 de janeiro de 2015

EU TE BAPTIZO EM NOME DO MAR



Eu te baptizo em nome do mar,
disse minha mãe com barcos na voz.
E as ondas enlearam nas águas o meu nome,
abrindo nas fendas do corpo um impulso
salgado que me brandiu o sangue.
Sei agora que há âncoras afogadas
nos meus olhos: nítido eco de todas as demandas.

Graça Pires
De Espaço livre com barcos, 2014



segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

O PEQUENO PERSA




É um pequeno persa
azul o gato deste poema.
Como qualquer outro, o meu
amor por esta alminha é materno:
uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,
outra põe-lhe o sol entre as patas
ou uma flor à janela.
Com garras e dentes e obstinação
transforma em festa a minha vida.
Quer-se dizer, o que me resta dela.

Eugênio de Andrade

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

A VERDADE




A verdade é a luz pequena
ardendo na escuridão.
Da terra, ela nasce e cresce 
de vida, na tua mão.
Quem a encontra, gasta um rio
de palavras, inaugura 
braços e barcos, mostrando.
Ninguém a vê. De repente,
é um sol imenso no peito 
da multidão: é a verdade 
no centro do seu poder.
Mas ela também se acaba.
E quando, quando se acaba
é uma brasa oca, faminta,
devorando o coração.

Thiago de Mello
In: Poesia Comprometida Com a Minha e a Tua Vida

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

SE PERGUNTAREM POR MIM




digam
-que as raízes de meus ventos dispersaram tantas quimeras
mas que os vendavais de meus dias não perderam ainda suas cores
-que o sol, o mar e as areias da praia fluem
em mim como os acordes de Debussy num fim de tarde
-que todos os azuis e os verdes, às vezes, me habitam
-que, às vezes, sou uma pobre noite sem estrelas puras
-que meus sonhos de tão vagos não encontraram
janelas e nem portas
-que minhas semeaduras se deixam queimar magras,
bem antes que o sol se ponha
-que na musica de tantos dias e noites encontrei
violinos desafinados 
-mas que
na chuva, de tão cinza ao cair
descobri nela
toda uma gama de coloração
de vida
rasgando estradas novas em esperança.


Se perguntarem por mim. . . 



Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

ASAS



Eu tenho asas!
Piso o chão como pisa toda a gente
mas tenho asas
de impalpável tecido transparente,
feitas de pó de estrelas e de flores.
Asas que ninguém vê, que ninguém sente,
asas de todas as cores.
Pequenas asas brancas que me afastam
das coisas triviais
e as tornam leves, fluídas, irreais
- polén, nuvem, luar, constelações,
irisados cristais.
Asa branca minha alma a palpitar,
bater de asas o doce ciciar
de pálpebras e cílios.
Ó minhas asas brancas de cetim!
Revoadas de pássaros meus sonhos,
Meus desejos sem fim!


Fernanda de Castro,
in Exílio




ARTIGO III




Fica decretado que, a partir deste instante, 
haverá girassóis em todas as janelas, 
que os girassóis terão direito 
a abrir-se dentro da sombra; 
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro, 
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Thiago de Mello,
in Os Estatutos do Homem
(excerto)


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

A COR DA LUA NOVA




Com crisântemos entre as mãos,
manuseio ideias fixas
e pinto, de vermelho, todos os segredos
que guardo pouco à vontade.
Depois, ao comprido das horas,
escolho um lugar estratégico para esperar a alegria
e dou, ao coração, nomes contraditórios.
A passagem do tempo, traça em meus pés
um futuro peregrino.
Nenhum prodígio me está destinado.
Só a brisa, entrando pelo avesso dos sonhos,
infatigável e lenta, me deixa no olhar
a cor da lua nova.

Graça Pires
De Reino da lua, 2002


segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

NÓS SOMOS




Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias,
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.
Caminhamos, um país sussurra,
dificilmente nas calçadas, nos quartos,
um país puro existe, homens escuros,
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro,
uma terra existe nesta terra,
nós somos, existimos
Como uma pequena gota às vezes no vazio,
como alguém só no mar, caminhando esquecidos,
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados,
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento,
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor,
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos,
uma voz num portal e a manhã é de sol,
nós somos, existimos.
Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho,
uma carta que segue, um bom dia que chega,
hoje, amanhã, ainda, a vida continua,
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia,
nas mãos que se dão, nos punhos torturados,
nas frontes que persistem,
nós somos,
existimos.

António Ramos Rosa,
 in Sobre o Rosto da Terra

sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

COMEÇAR HOJE O ANO




Nada começa.Tudo continua.
Onde ‘stamos, que vemos só passar?
O dia muda, lento, no amplo ar;
Múrmura, em sombras, flui a água nua.

Vem de longe,
Só nosso vê-las teve começar.
Em cadeias do tempo e do lugar,
È abismo o começo e ausência.

Nenhum ano começa. É Eternidade!
Agora, sempre, a mesma eterna Idade,
Precipício de Deus sobre o momento,

Na curva do amplo céu o dia esfria,
A água corre mais múrmura e sombria
E é tudo o mesmo: e verbo o pensamento.

Fernando Pessoa, Poesia
In Poemário - Assírio e Alvim - 2007

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

VAI, ANO VELHO





1

Vai, ano velho, vai de vez
vai com tuas dívidas
e dúvidas, vai, dobra a ex-
quina da sorte, e no trinta e um
à meia-noite, esgota o copo
e a culpa do que nem me lembro
e me cravou entre janeiro e dezembro.

Vai, leva tudo: destroços,
ossos, fotos de presidentes,
beijos de atrizes, enchentes,
secas, suspiros, jornais.
Vade retrum , prá trás,
leva pra escuridão
quem me assaltou o carro,,
a casa e o coração.

Não quero te ver mais,
só daqui a anos, nos anais,
nas fotos do nunca-mais.


2

Vem Ano Novo, vem veloz
vem em quadrigas, aladas, antigas
ou jatos de luz, moderna, vem,
paira, desce, habita em nós,
vem com cavalhadas, folias, reisados,
fitas multicores, rebecas,
vem com uva e mel e desperta
em nosso corpo a alegria,
escancara a alma, a poesia,
e, por um instante, estanca
o verso real, perverso
e sacia em nós a fome
-de utopia.

Vem na areia da ampulheta como a
semente que contivesse outra se-
mente que contivesse ou-
tra semente ou pérola
na casca da ostra
como se

se
outra se-
mente pudesse
nascer do corpo e mente
ou do umbigo da gente como o ovo
o Sol da gema no Ano Novo que rompesse
a placenta da noite em viva flor luminescente.

3

Adeus, tristeza: a vida
é uma caixa chinesa
de onde brota a manhã.

Agora
é recomeçar.
A utopia é urgente.

Entre flores de urânio
é permitido sonhar.


Affonso  Romano de Sant’Anna





segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

NAS CASAS ABANDONADAS




Nas casas abandonadas, as silvas
vão tecendo as rédeas do tempo.
A terra inquieta fende o cimento
afagado, desfaz a cal das paredes,
contamina alvenarias.
Um declínio de pássaros na poeira
da tarde, desfoca as mãos
dos que morreram com as árvores.


Graça Pires
De Quando as estevas entraram no poema, 2005

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

É NATAL




É Natal, nunca estive tão só.
Nem sequer neva como nos versos
do Pessoa ou nos bosques
da Nova Inglaterra.
Deixo os olhos correr
entre o fulgor dos cravos
e os diospiros ardendo na sombra.
Quem tem assim o verão
dentro de casa
não devia queixar-se de estar só,
não devia


Eugénio de Andrade,
in: Rente ao Dizer

COMPRAS DE NATAL




A cidade deseja ser diferente, escapar às suas fatalidades.
Enche-se de brilhos e cores; sinos que não tocam, balões que
não sobem, anjos e santos que não se movem, estrelas que
jamais estiveram no céu.

As lojas querem ser diferentes, fugir à realidade do ano inteiro:
enfeitam-se com fitas e flores, neve de algodão de vidro, fios
de ouro e prata, cetins, luzes, todas as coisas que possam 
representar beleza e excelência.

Tudo isso para celebrar um Meninozinho envolto em pobres panos,
deitado numas palhas, há cerca de dois mil anos, num abrigo 
de animais, em Belém.

Todos vamos comprar presentes para os amigos e parentes, 
grandes e pequenos, e gastaremos, nessa dedicação sublime, 
até o último centavo, o que hoje em dia quer dizer a última 
nota de cem cruzeiros, pois, na loucura do regozijo unânime,
nem um prendedor de roupa na corda pode custar menos do que isso.

Grandes e pequenos, parentes e amigos são todos de gosto
bizarro e extremamente suscetíveis. Também eles conhecem
todas as lojas e seus preços — e, nestes dias, a arte de 
comprar se reveste de exigências particularmente difíceis.
Não poderemos adquirir a primeira coisa que se ofereça à
nossa vista: seria uma vulgaridade. Teremos de descobrir
o imprevisto, o incognoscível, o transcendente. 
Não devemos também oferecer nada de essencialmente
necessário ou útil, pois a graça destes presentes parece
consistir na sua desnecessidade e inutilidade.
Ninguém oferecerá, por exemplo, um quilo (ou mesmo um saco) 
de arroz ou feijão para a insidiosa fome que se alastra por
 estes nossos campos de batalha; ninguém ousará comprar uma 
boa caixa de sabonetes desodorantes para o suor da testa com que 
— especialmente neste verão — teremos de conquistar o 
pão de cada dia. Não: presente é presente, isto é, um objeto
extremamente raro e caro, que não sirva a bem dizer para coisa
alguma.

Por isso é que os lojistas, num louvável esforço de imaginação,
organizam suas sugestões para os compradores,
valendo-se de recursos que são a própria imagem da ilusão.
Numa grande caixa de plástico transparente
(que não serve para nada), repleta de fitas de papel celofane
(que para nada servem), coloca-se um sabonete em forma de flor
(que nem se possa guardar como flor nem usar como sabonete),
e cobra-se pelo adorável conjunto o preço de uma cesta de rosas. 
Todos ficamos extremamente felizes!

São as cestinhas forradas de seda, as caixas transparentes os
estojos, os papéis de embrulho com desenhos inesperados, 
os barbantes, atilhos, fitas, o que na verdade oferecemos aos
parentes e amigos. Pagamos por essa graça delicada da ilusão.
E logo tudo se esvai, por entre sorrisos e alegrias. Durável
— apenas o Meninozinho nas suas palhas,
a olhar para este mundo.


Cecília Meireles
In: Quatro Vozes
Rio de Janeiro, 1998, pág. 80.








sábado, 20 de dezembro de 2014

LIÇÃO




A luz da lamparina dançava
frente ao ícone da Santíssima Trindade.
Paciente, a avó ensinava
a prostrar-se em reverência,
persignar-se com três dedos
e rezar em língua eslava.
De mãos postas, a menina
fielmente repetia
palavras que ela ignorava,
mas Deus entendia.

Helena Kolody 
In “Poesias escolhidas”




"NOSTÁLGICA N.º 2"




Esse tempo que passa como um vento brando
agitando um ramo desfolhando o aroma
esse tempo de asa entre flor e flor
que leva pólen e insetos embriagados
esse vento quase tristeza em meus lábios
que vai levando e me deixando a sós
fala da alma que me desabita
do meu corpo ausente quando não estás


Dora Ferreira da Silva
in Poesia Reunida




NÃO SEI





Não sei onde começa o céu e nem acaba.
O infinito se dissolve como números na névoa.
Vou-me, porque a voz que chama é a mesma que chamava.
Será a mesma, acaso, a mão que ainda me leva?



Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Só a noite é que amanhece

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

RITOS QUE AS HORAS CALMAS...




Ritos que as Horas Calmas 
      Ao entardecer 
Fazem com as almas 
      Sem se conhecer... 
E que em voos de ânsias 
      Põem espirituais distâncias 
Entre olhar e ver.

Turíbulos que a Tarde 
      Oscila no ar 
Donde a névoa arde 
      Cor desde cansar... 
Arco dos balanceados 
Turíbulos os raios do sol fechados 
      Na destreza do ar

Fim de missas no Poente 
      Bênçãos ainda são 
Luz branca e cinzas entre 
      Terra e coração 
Saem os fiéis p’la aberta 
Porta da paisagem que se deserta... 
      ...Sinos sem perdão...


 
Fernando Pessoa
In Poesia 1902/1917


domingo, 14 de dezembro de 2014

COMO UM EMBALO




Fosse uma chama, crepitaria
sob meus dedos, na solidão.
Nada mais quero, nada queria.
As noites chegam, os dias vão.

Fosse uma chama, breve arderia,
brasa de sonho, na escuridão.
Já nada quero da luz do dia...
Queima uma estrela na minha mão.

Mas nada quero da luz da estrela...
(Chegam as noites, os dias vão.)
Por que sonhá-la, se vais perdê-la,
alma perdida na solidão?


Alphonsus de Guimaraens Filho
In Água do Tempo, 1976

sábado, 13 de dezembro de 2014

CASA



A antiga casa que os ventos rodearam 
Com suas noites de espanto e de prodígio 
Onde os anjos vermelhos batalharam 

A antiga casa de inverno em cujos vidros 
Os ramos nus e negros se cruzaram 
Sob o Íman dum céu lunar e frio 

Permanece presente como um reino 
E atravessa meus sonhos como um rio 


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN 
In Geografia


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

ASAS E AZARES




Voar com a asa ferida?
Abram alas quando eu falo.
Que mais foi que fiz na vida?
Fiz, pequeno, quando o tempo
estava todo ao meu lado
e o que se chama passado,
passatempo, pesadelo,
só me existia nos livros.
Fiz, depois, dono de mim,
quando tive que escolher
entre um abismo, o começo,
e essa história sem fim.
Asa ferida, asa ferida,
meu espaço, meu herói.
A asa arde. Voar, isso não doi.

Paulo Leminski,
in DISTRAÍDOS VENCEREMOS

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

NUNCA SEI AO CERTO...





Nunca sei ao certo 
se sou um menino de dúvidas
ou um homem de fé

certezas o vento leva
só dúvidas continuam de pé


Paulo Leminski
In Ex-estranho



segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

PEQUENO POEMA




Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu,
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.

As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

Pra que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha Mãe...



SEBASTIÃO DA GAMA
in ANTOLOGIA POÉTICA 
(edição póstuma)