quinta-feira, 18 de setembro de 2014

NÃO POSSO ADIAR O AMOR




Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração

António Ramos Rosa,
 in "Viagem Através de uma Nebulosa"






domingo, 14 de setembro de 2014

A SOLIDÃO...




“A solidão não nos condena,
não nos culpa, não nos cobra.
Antes, nos redime e nos realimenta. 
E, nos momentos em que nos visita,
recupera-nos em identidade
com todo vento que sopra,
todo riacho que murmura, 
toda luz que enternece.
A solidão é isto: 
a lembrança de um outro mundo,
 um universo que acontece”.

Fernando Campanella

sábado, 13 de setembro de 2014

O LADRÃO DE VERSOS




Uma gargalhada de meu filho
rouba-me um verso. Era,
se não erro, um verso largo,
enxuto e musical. Era bom
e certeiro, acreditem, esse verso
arisco e difícil, que se soltara
dentro de mim. Mas meu filho
riu e o verso despenhou-se no cristal
ingênuo e fresco desse riso. Meu Deus,
troco todos os meus versos
mais perfeitos pelo riso antigo
e verdadeiro de meu filho.

Rui Knopfli — Mangas Verdes com Sal
“in” Antologia Poética – Poetas de Moçambique

sexta-feira, 12 de setembro de 2014

A UM ANCIÃO



Que te valeu viveres tantos anos,
A sofrer da existência os dissabores,
Enganado, a buscar novos enganos,
Trocando a velha dor por novas dores?

Falharam-te de glória os nobres planos;
Desejavas amor, tiveste... amores.
E, hoje, passas, cansado, entre os humanos,
Indiferente a ápodos e a louvores.

De nada te serviu quanto aprendeste
Do mundo; e tudo quanto viste e quanto
Em mil volumes, velho amigo, leste.

De nada. E a vida foi-se-te, entretanto.
Se para envelhecer é que viveste,
Que te valeu, ancião, viveres tanto?...


Bastos Tigre
Antologia Poética – 1.982 -




quinta-feira, 11 de setembro de 2014

PALAVRAS FUNDAMENTAIS



Faz com que a tua vida seja
sino que repique
ou sulco onde floresça e frutifique
a árvore luminosa da ideia.
Alça a tua voz sobre a voz sem nome
de todos os demais, e faz com que ao lado
do poeta se veja o homem.

Enche o teu espírito de lume;
procura as eminências do cume
e, se o esteio nodoso do teu báculo
encontrar algum obstáculo ao teu intento,
sacode a asa do atrevimento
perante o atrevimento do obstáculo.


Nicolás Guillén
Tradução de Albano Martins)





domingo, 7 de setembro de 2014

OS VELHOS



Não é simples envelhecer.
Já um poeta o disse.
Peregrinos do tempo,
aprenderam, pelo olhar,
o caminho do trigo maduro,
o perfil dos navios
que partem sem regresso,
a mudança das estações do ano,
a curta duração das emoções.
Mas, quem se lembra da fadiga
dos seus braços, agora,
que é outono em suas mãos?
Quem fez do banco do jardim
um referente da morte,
o lugar onde a sua solidão se acoita?
Quem esqueceu, nas suas rugas,
a sábia maturidade da vida,
ou antes, um modo diverso
de olhar na direcção da noite?


Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

JARDIM




Quando os ventos da primavera 
fustigam os jardins e as rosas 
se desfolham por terem a fragilidade 
do silêncio fica na terra um perfume 
tão inquietante que entontece 
o cetim das palavras.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013



sexta-feira, 5 de setembro de 2014

VELHA CHÁCARA



A casa era por aqui...
Onde? Procuro-a e não acho.
Ouço uma voz que esqueci:
É a voz deste mesmo riacho.

Ah quanto tempo passou!
(Foram mais de cinqüenta anos)
Tantos que a morte levou!
(E a vida... nos desenganos...)

A usura fez tábua rasa
Da velha chácara triste:
Não existe mais a casa...

— Mas o menino ainda existe.


 MANUEL BANDEIRA
In Lira dos cinquent’anos, 1940

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

A CRIANÇA QUE RI NA RUA




A criança que ri na rua,
A música que vem no acaso,
A tela absurda, a estátua nua,
A bondade que não tem prazo —
Tudo isso excede este rigor
Que o raciocínio dá a tudo,
E tem qualquer coisa de amor,
Ainda que o amor seja mudo.

FERNANDO PESSOA,
in POESIAS INÉDITAS


RENTE À INOCÊNCIA



As primeiras mimosas marcaram a fronte
da menina saída do livro de aventuras,
que foi largado a um canto da inocência :
graciosa personagem a crescer para a memória
como um feitiço ; íman sagrado que resgata
a fantasia e desenha um berço nas mãos
dos que são da mesma estirpe dos poetas.
A morada dos gnomos situa-se na estrofe
da cantiga que fala dos moinhos de vento,
ou ao rés da magia do mais minucioso gesto
com que se adornam os cabelos e as mágoas.

Graça Pires
De Ortografia do olhar, 1996

terça-feira, 2 de setembro de 2014

ESTÁS SÓ.




Estás só. Ninguém o sabe.
Estás só.
Ninguém o sabe.
Cala e finge.
Mas finge sem fingimento.
Nada 'speres que em ti já não exista,
Cada um consigo é triste.
Tens sol se há sol, ramos se ramos buscas,
Sorte se a sorte é dada

Fernando Pessoa (Ricardo Reis)
in Poemas de Ricardo Reis

(1888-1935)

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

OUVE O TEU CORAÇÃO



Não esperes achar compensações na terra:
Se fizeres o bem, prêmio nenhum terás.
Os que sobem contigo os aclives da serra
Não te virão valer, se ficares atrás.

Aconselha-te alguém? É aquele que mais erra
Ensina-te a verdade? É o mais falso e mendaz
E o que, violento e hostil, te excita e incita à guerra
É o mesmo que desfruta as delícias da paz.

Mas não culpes ninguém. É a vida. Aceita a vida...
Como sofres, também os outros sofrerão,
Que há na maior ventura uma dor escondida.

Teu cérebro consulta, ouve o teu coração,
E, em ti mesmo, acharás a energia perdida,
A censura, o aplauso, o castigo, o perdão.

Bastos Tigre
Antologia Poética – l.982 –

domingo, 31 de agosto de 2014

E O AMOR TRANSFORMOU-SE...



E o amor transformou-se noutra coisa com o mesmo nome.
Era disto que falavam as mães quando davam conselhos 
às filhas e diziam: o amor vem depois. 
Era isto o depois. 
Uma ternura simples, quase dolorosa, muitos silêncios,
todas as horas do dia e um poema que se dissolve 
dentro de mim e que, devagar, sem rosto, desaparece.
.
José Luís Peixoto, 
in Gaveta de Papéis

sábado, 30 de agosto de 2014

INUTILMENTE

(foto by Washington Takeuchi)

  
Floriram os ipês ali da praça
e, quando a gente passa,
-porque o vento as derruba em profusão –
vai esmagando flores pelo chão.
 
 
Como ciclópica oficina
pulsa, ao redor, a vida citadina.
Arranha-céus fugindo para o alto
numa arquitetura funcional;
automóveis rodando sobre o asfalto
e, de fundas angústias carregada,
a multidão correndo, alucinada,
vazia de Ideal.
 
 
Babélica, apressada,
toda essa gente não repara em nada:
não vê, em cima, a loira floração,
nem vê que pisa em flores pelo chão.
 
 
Os ipês se enfloraram, mas em vão . . .
Sua mensagem clara, colorida,
-um hino de louvor ao Belo e à Vida –
fica rolando, inútil, pelo chão,
fica, inútil, rolando pelo ar,
pois os homens não sabem mais sonhar.
 
 
Graciette Salmon
In: A Vida Por Dentro


quinta-feira, 28 de agosto de 2014

ALEGRIA



Volta de novo, idade 
da inocência que foi minha. 
Traz-me nas tranças 
a cristalina alegria dos dias 
em que no fundo do coração 
nenhum nome me doía.

Graça Pires
De Caderno de significados, 2013

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

CENA SEM ENSAIO




A vida na hora.
Cena sem ensaio.
Corpo sem medida.
Cabeça sem reflexão.

Não sei o papel que desempenho.
Só sei que é meu, impermutável.

De que trata a peça
devo adivinhar já em cena.

Despreparada para a honra de viver,
mal posso manter o ritmo que a peça impõe.
Improviso embora me repugne a improvisação.
Tropeço a cada passo no desconhecimento das coisas.
Meu jeito de ser cheira a província.
Meus instintos são amadorismo.
O pavor do palco, me explicando, é tanto mais humilhante.
As circunstâncias atenuantes me parecem cruéis.

Não dá para retirar as palavras e os reflexos,
inacabada a contagem das estrelas,
o caráter como o casaco às pressas abotoado -
eis os efeitos deploráveis desta urgência.

Se eu pudesse ao menos praticar uma quarta-feira antes
ou ao menos repetir uma quinta-feira outra vez!
Mas já se avizinha a sexta com um roteiro que não conheço.
Isso é justo - pergunto
(com a voz rouca
porque nem sequer me foi dado pigarrear nos bastidores).

É ilusório pensar que esta é só uma prova rápida
feita em acomodações provisórias. Não.
De pé em meio à cena vejo como é sólida.
Me impressiona a precisão de cada acessório.
O palco giratório já opera há muito tempo.
Acenderam-se até as mais longínquas nebulosas.
Ah, não tenho dúvida de que é uma estreia.

E o que quer que eu faça,
vai se transformar para sempre naquilo que fiz.


Wislawa Szymborska,
in Poemas
(tradução de Regina Przybycien)


segunda-feira, 25 de agosto de 2014

BEBO SOZINHO AO LUAR



Bebo sozinho ao luar
Entre as flores há um jarro de vinho.
Sou o único a beber: não tenho aqui nenhum amigo.
Levanto a minha taça, oferecendo-a à lua:
com ela e a minha sombra, já somos três pessoas.
Mas a lua não bebe, e a minha sombra imita o que faço.
A sombra e a lua, companheiras casuais,
divertem-se comigo, na primavera.
Quando canto, a lua vacila.
Quando danço, a minha sombra se agita em redor.
Antes de embriagados, todos se divertem juntos.
Depois, cada um vai para a sua casa.
Mas eu fico ligado a esses companheiros insensíveis:
nossos encontros são na Via Láctea.."

Li Po
(Tradução de Cecília Meireles)



'XII PRECE'



Senhor, a noite veio e a alma é vil.
Tanta foi a tormenta e a vontade!
Restam-nos hoje, no silêncio hostil, 
O mar universal e a saudade.

Mas a chama, que a vida em nós criou,
Se ainda há vida ainda não é finda. 
O frio morto em cinzas a ocultou:
A mão do vento pode ergue-la ainda. 

Dá o sopro, a aragem - ou desgraça ou ânsia-
Com que a chama do esforço se remoça, 
E outra vez conquistaremos a Distância -
Do mar ou outra, mas que seja nossa! 


Fernando Pessoa
in 'Mensagem'

HINO À NOITE



Ó noite, eu te desejo, e anseio o teu abraço
macio como o luar, quieto como o jazigo.
A fadiga me esvai, domina-me o cansaço,
como um boêmio feliz eu vim dormir contigo.
De sonho em sonho andei.Fui poeta, fui mendigo.
Corri atrás do tempo e me perdi no espaço
e vi se desfazer meu pensamento antigo
e em sangue transformar-se a sombra do meu passo.
Um dia, a procurar-te, olhei para o poente:
na estrada solidão da tarde, impertinente,
um pássaro de sol crepusculava a esmo.
Então eu te encontrei e, em meu triste abandono,
meus olhos disfarcei na volúpia do sono
e caminhei cantigo em busca de mim mesmo.

Gilberto Mendonça Teles
In Poemas Reunidos

PARA FAZER O RETRATO DE UM PÁSSARO



Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
depois pintar
qualquer coisa de bonito
qualquer coisa de simples
qualquer coisa de belo
qualquer coisa de útil...
para o pássaro
depois pendurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem dar um pio
sem mover um dedo...
Às vezes o pássaro chega sem demora
mas pode também levar longos anos
até se decidir
Não se abater
esperar
esperar anos e anos se preciso
pois a rapidez ou a demora
do pássaro não têm nada a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
manter o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando entrar
fechar suavemente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tomando cuidado para não tocar sem querer nas penas do pássaro
Fazer depois o retrato da árvore
reservando o galho mais belo de todos
para o pássaro
pintar ainda a folhagem verde e o frescor do vento
a poeira do sol
e o rumor dos insetos na relva no calor do verão
depois é só esperar que o pássaro comece a cantar
Se o pássaro não cantar
é mau sinal
sinal de que o quadro é mau
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
então você deve arrancar devagarinho
uma das penas do pássaro
e escrever seu nome num canto do quadro.


Jacques Prévert
Paroles
Sextante Editora, 2007
Tradução de Manuela Torres


sábado, 23 de agosto de 2014

DEPUS A MÁSCARA



Depus a máscara e vi-me ao espelho. — 
Era a criança de há quantos anos. 
Não tinha mudado nada... 
É essa a vantagem de saber tirar a máscara. 
É-se sempre a criança, 
O passado que foi 
A criança. 
Depus a máscara, e tornei a pô-la. 
Assim é melhor, 
Assim sem a máscara. 
E volto à personalidade como a um términus de linha. 

Álvaro de Campos, in "Poemas" 
Heterónimo de Fernando Pessoa


 

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ÁRIA PARA VIOLINO



Para nadar no silêncio
ergo as mãos extraviadas;

são estrelas acordadas,
ou meu eco em seu silêncio.

Escorre pelo que sinto
meu perfil escrito e ouvido

e em som e cor me divido
entre mim e o que não sinto.


Colombo de Sousa
In: Estágio 1964


quarta-feira, 20 de agosto de 2014

VELHAS ÁRVORES



“Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas*…

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas…

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!”

Olavo Bilac
in 'Poesias Infantis', 

AS COISAS SÃO TRANSITÓRIAS




Irmão, 
nada é eterno, nada sobrevive. 
Recorda isto, e alegra-te. 

A nossa vida 
não é só a carga dos anos. 
A nossa vereda 
não é só o caminho interminável. 
Nenhum poeta tem o dever 
de cantar a antiga canção. 
A flor murcha e morre; 
mas aquele que a leva 
não deve chorá-la sempre... 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Chegará um silêncio absoluto, 
e, então, a música será perfeita. 
A vida inclinar-se-á ao poente 
para afogar-se em sombras doiradas. 
O amor há-de ser chamado do seu jogo 
para beber o sofrimento 
e subir ao céu das lágrimas ... 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Apanhemos, no ar, as nossas flores, 
não no-las arrebate o vento que passa. 
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos 
roubando beijos que murchariam 
se os esquecêssemos. 

É ânsia a nossa vida 
e força o nosso desejo, 
porque o tempo toca a finados. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Não podemos, num momento, abraçar as coisas, 
parti-las e atirá-las ao chão. 
Passam rápidas as horas, 
com os sonhos debaixo do manto. 
A vida, infindável para o trabalho 
e para o fastio, 
dá-nos apenas um dia para o amor. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Sabe-nos bem a beleza 
porque a sua dança volúvel 
é o ritmo das nossas vidas. 
Gostamos da sabedoria 
porque não temos sempre de a acabar. 
No eterno tudo está feito e concluído, 
mas as flores da ilusão terrena 
são eternamente frescas, 
por causa da morte. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Rabindranath Tagore,
in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões

domingo, 17 de agosto de 2014

O SILÊNCIO...


O Silêncio amedronta.
Conforta-nos a Fala ?
Mas o Silêncio é Infinitude.
Silêncio não tem cara.

Emily Dickinson,
in Alguns poemas. Trad. José Lira

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

POEMA II




Existem gestos,
Palavras ternas e espontâneas
Cheias de calor humano.
Que brotam sem a gente sentir...
Até mesmo um simples sorriso.

Coisas que identificam,
Unem como os elos,
Elos de uma simples corrente
Nascendo , então,
Do fundo do coração,
Algo sublime,
Algo inconfundível
Que nos reabilita quando sincero,
E nos conforta - A AMIZADE.

Olympiades Guimarães Corrêa
em Neblina do Tempo -1.996

domingo, 10 de agosto de 2014

MEU PAI, DÁ-ME OS TEUS VELHOS SAPATOS MANCHADOS DE TERRA...




Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra 
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas 
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência 
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste. 

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas 
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias 
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.


Vinícius de Moraes
In Poesia completa e prosa, 1998 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ENVELHECER...




Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...


BASTOS TIGRE


DEUS HUMANO



Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.

Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.


BASTOS TIGRE

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PLURAL DE NUVENS



Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


domingo, 3 de agosto de 2014

FILHO PRÓDIGO -




I
Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.
 
II
Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.
 
III
Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.
 
IV
Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.
 
V
Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.



Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"
12 de outubro de 2011 às 17:35


sábado, 2 de agosto de 2014

CÚMPLICE ALENTO



I
Sou lento.
Mas, atento
aos meus passos,
pesados e passados,
recupero minha História.
E persigo fantasmas
que até do diabo fogem:
aqueles que aflitos se escondem
não sei ainda por onde.
 
II
Sou vento.
Mas avento,
por entre as quatro Estações,
atos que aprendi a sentir,
sem pompa ou circunstância,
da Alma Feminina: de seus argutos,
áridos, vis ou nobres corações.
 
III
Sou advento.
Mas desinvento
cada passo e contrapasso
do meu Tempo e Memória.
Trapiche de infinitos universos,
amargo presenças e presentes:
escassos como parentes;
vários como meus únicos versos.
 
IV
Sou alento
para o leitor atento,
capaz de reler cada linha;
de arguir e beber cada ato.
Ele navega comigo.
Sem perceber o momento,
deslinda meu suposto intento:
torna-se cúmplice de inteiro trato.
 
 
*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PAZ




Na ponta dos pés
como bailarina pisando
em folhas e assombros,
costurar os dois lados da lua,
a Terra no céu,
e no céu e na Terra
desenhar com o corpo inteiro 
a palavra paz.

Roseana Murray, 
in Todas as Cores dentro do Branco

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A VIAGEM DEFINITIVA



Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

Juan Ramón Jiménez 
- Trad. de Manuel Bandeira





DOÍDO CORAÇÃO DOIDO



Estive entre mim
e entre mim.

Naufrágios.
Difíceis rimas.
Remos de quebranto.
Ninguém sabe o que é.
O que se sabe não se diz.
O que se diz não se vê.

Doido coração. Doído.
Estoura, estala.
Estigma.


Lindolf Bell,
in Código das Águas


terça-feira, 29 de julho de 2014

O MILAGRE




Tu, que estremeces entre a dor passada
e a dor que chega(vês? A noite desce ...),
como podes semear, de novo, a messe
do sonho imenso, a um vento ruim tombada?

Sabes que inda te espera outra rajada,
porém sorris, e tens ao lábio a prece ...
Como que na tua alma resplandece
toda a curva da noite iluminada!

És, na esplanada aberta desta vida,
braceando aos céus, uma árvore despida
que as ventanias doidas esfolharam!

E sonhas! Ah! Na convulsão violenta,
que subterrânea fonte te alimenta,
que insondáveis raízes te ampararam?


Tasso da Silveira
in Poemas




segunda-feira, 28 de julho de 2014

HOMEM



É a Natureza, em torno. – Em vão a estudas,
e os problemas intérminos agitas:
em solidões desérticas transmudas
a seara azul das ilusões benditas ...

- É a altura imensa. – As ânsias mais agudas, por 
entendê-las, te laceram: gritas!
... mas são os astros reticências mudas
no silêncio das trevas infinitas ...

- É teu ser tumultuante. – Rememoras ...
e ouve vozes longínquas e sonoras
de perdidas distâncias, de outros mundos ...

Na água-morta do sonho te debruças,
cantas! E, assim cantando, é que soluças,
trêmulo, os teus soluços mais profundos ...


Tasso da Silveira 
in Poemas

sábado, 26 de julho de 2014

PLANTEI UMA HERA


Plantei na janela uma hera inclinada para dentro
para acolher o cheiro das manhãs em que as aves
se fazem aragem nas cortinas de cores vagas.
Encurvei os pulsos para que as mãos
se acrescentassem às sombras do beirais
sem a dor das palavras mutiladas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol

sexta-feira, 25 de julho de 2014

MISSA



Na singela capela
há um pêndulo oficiante.
Enquanto no altar claro
o sacerdote invoca o Eterno,
em cânticos ardentes
e inenarráveis gemidos
o pêndulo vai marcando, 
vai contando
inexoravelmente
os minutos perdidos.


Tasso da Silveira 
Poemas de Antes – l.966 –

quinta-feira, 24 de julho de 2014

SAUDADE



Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!

Da Costa e Silva,
in Poesias Completas


quarta-feira, 23 de julho de 2014

A JARRA



Na sala dourada o crepúsculo derramou uma 
ânfora de sombra.

E todas as cores diluíram-se em tons neutros
e mortos,
e os desenhos de linhas lúcidas
dos portais de ouro,
das poltronas hieráticas
e dos estofos claros
desfizeram-se num frêmito de dispersão infinita.

Mas sobre o consolo em mogno antigo
uma jarra de mármore branco
ficou vivendo ...
... ficou vivendo, alva, na sombra, a vida
integral e pura
da forma que se não dilui ...


Tasso da Silveira
in Poemas

terça-feira, 22 de julho de 2014

INTERMÉDIO – II



Dor:

saudade de realidades perdidas.

O ângulo forte de uma sala,
a curva leve de um canteiro de rosas,
o traço lúcido de um perfil,

que se perderam na sombra imensa do passado
e são como lanternas que para sempre se apagaram
na festa prodigiosa
dos sentidos ...


Tasso da Silveira
in Poemas



sábado, 19 de julho de 2014

NARCISO E O CÉU



Este céu de ouro nítido,
mirando-se na água sereníssima,
é Narciso.
Narciso, que se despercebia das coisas todas em torno,
das montanhas imóveis na líquida faiscação da luz macia,
das árvores em balouços esquecidos e lentos,
nas ninfas ágeis e frescas como frêmitos de alvorada
na tarde mansa,
das coisas todas que, no entanto, se saturavam da graça
pura do seu corpo,
- porque a alma inteira se lhe fundia no êxtase da sua
própria beleza refletida.

Narciso, que era,
na harmoniosa alma helênica,
uma adivinhação comovida
do Ser infinito e absoluto
que eternamente se contempla a si mesmo.


Tasso da Silveira
in Poemas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CANÇÃO



Os cavalos do tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento. 

Os cavalos do tempo vão correndo.
Vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando. 

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
no indescontínuo imemorial esforço.
Ah! são o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...


Tasso da Silveira
(Regresso à Origem, 1960)





quarta-feira, 16 de julho de 2014

FELICIDADE



Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “Bom dia, folha morta”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse:“Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”

E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!


Guilherme de Almeida
in Sonetos


terça-feira, 15 de julho de 2014

DA COR



"Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos da última estação, a voz das velhas damas,
os primeiros sapatos, certas tabuletas,
certas ruazinhas laterais : a cor do tempo …''

Mario Quintana
in Sapato Florido

sexta-feira, 11 de julho de 2014

NAS VOZES



Nas vozes
das velhas árvores
reconheço as dos meus ancestrais.

Sentinelas de séculos,
seu sonho está nas raízes.


Humberto Ak'abal
In Tecedor de Palavras


A CADA UM




Amanhece.

O Sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,árvores,
casinhas,
animais,
pessoas...

E a cada um
lhe põe sombra.


Humberto Ak'abal
In Tecedor de Palavras


NÃO ESTÃO



Os pássaros não estão,
se esconderam no meu coração.

Hoje sou ninho.

Humberto Ak'abal, 
In Tecedor de Palavras


PÁSSARO SEM ASAS



Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encantamento
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória 
recua,recua
até encontrar minha alma de menino.
(a escuridão 
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.

Humberto Ak'abal, 
In Tecendor de Palavras