quarta-feira, 20 de agosto de 2014

VELHAS ÁRVORES



“Olha estas velhas árvores, — mais belas,
Do que as árvores mais moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas*…

O homem, a fera e o inseto à sombra delas
Vivem livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E alegria das aves tagarelas…

Não choremos jamais a mocidade!
Envelheçamos rindo! envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,

Na glória da alegria e da bondade
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!”

Olavo Bilac
in 'Poesias Infantis', 

AS COISAS SÃO TRANSITÓRIAS




Irmão, 
nada é eterno, nada sobrevive. 
Recorda isto, e alegra-te. 

A nossa vida 
não é só a carga dos anos. 
A nossa vereda 
não é só o caminho interminável. 
Nenhum poeta tem o dever 
de cantar a antiga canção. 
A flor murcha e morre; 
mas aquele que a leva 
não deve chorá-la sempre... 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Chegará um silêncio absoluto, 
e, então, a música será perfeita. 
A vida inclinar-se-á ao poente 
para afogar-se em sombras doiradas. 
O amor há-de ser chamado do seu jogo 
para beber o sofrimento 
e subir ao céu das lágrimas ... 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Apanhemos, no ar, as nossas flores, 
não no-las arrebate o vento que passa. 
Arde-nos o sangue e brilham nossos olhos 
roubando beijos que murchariam 
se os esquecêssemos. 

É ânsia a nossa vida 
e força o nosso desejo, 
porque o tempo toca a finados. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Não podemos, num momento, abraçar as coisas, 
parti-las e atirá-las ao chão. 
Passam rápidas as horas, 
com os sonhos debaixo do manto. 
A vida, infindável para o trabalho 
e para o fastio, 
dá-nos apenas um dia para o amor. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te. 

Sabe-nos bem a beleza 
porque a sua dança volúvel 
é o ritmo das nossas vidas. 
Gostamos da sabedoria 
porque não temos sempre de a acabar. 
No eterno tudo está feito e concluído, 
mas as flores da ilusão terrena 
são eternamente frescas, 
por causa da morte. 
Irmão, recorda isto, e alegra-te.

Rabindranath Tagore,
in "O Coração da Primavera" 
Tradução de Manuel Simões

domingo, 17 de agosto de 2014

O SILÊNCIO...


O Silêncio amedronta.
Conforta-nos a Fala ?
Mas o Silêncio é Infinitude.
Silêncio não tem cara.

Emily Dickinson,
in Alguns poemas. Trad. José Lira

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

POEMA II




Existem gestos,
Palavras ternas e espontâneas
Cheias de calor humano.
Que brotam sem a gente sentir...
Até mesmo um simples sorriso.

Coisas que identificam,
Unem como os elos,
Elos de uma simples corrente
Nascendo , então,
Do fundo do coração,
Algo sublime,
Algo inconfundível
Que nos reabilita quando sincero,
E nos conforta - A AMIZADE.

Olympiades Guimarães Corrêa
em Neblina do Tempo -1.996

domingo, 10 de agosto de 2014

MEU PAI, DÁ-ME OS TEUS VELHOS SAPATOS MANCHADOS DE TERRA...




Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos manchados de terra 
Dá-me o teu antigo paletó sujo de ventos e de chuvas 
Dá-me o imemorial chapéu com que cobrias a tua paciência 
E os misteriosos papéis em que teus versos inscreveste. 

Meu pai, dá-me a tua pequena chave das grandes portas 
Dá-me a tua lamparina de rolha, estranha bailarina das insônias 
Meu pai, dá-me os teus velhos sapatos.


Vinícius de Moraes
In Poesia completa e prosa, 1998 

sexta-feira, 8 de agosto de 2014

ENVELHECER...




Entra pela velhice com cuidado,
Pé ante pé, sem provocar rumores
Que despertem lembranças do passado,
Sonhos de glórias, ilusões de amores.

Do que tiveres no pomar plantado,
Apanha os frutos e recolhe as flores;
Mas lavra, ainda, e planta o teu eirado,
Que outros virão colher quando te fores.

Não te seja a velhice enfermidade.
Alimenta no espírito a saúde,
Luta contra as tibiezas da vontade.

Que a neve caia, o teu ardor não mude.
Mantém-te jovem, pouco importa a idade;
Tem cada idade a sua juventude!...


BASTOS TIGRE


DEUS HUMANO



Assusta-me este Deus de barba imensa,
Pai severo e tirano à moda antiga,
Que com o fogo do inferno os maus castiga
Porém, na terra, os bons não recompensa.

Este Deus que a adorá-lo nos obriga,
Mas que só ama a quem o adula e incensa
Nunca há de ser o Deus da minha crença
Que eu venere e entre cânticos bendiga.

O Jeová que no Antigo Testamento
Os profetas nos pintam, truculento,
É um velho Deus, motivo de pavor.

Moço é o meu Deus, de eterna juventude:
Perdoa. Todo o mal muda em virtude.
De tão humano, é quase um pecador.


BASTOS TIGRE

quarta-feira, 6 de agosto de 2014

PLURAL DE NUVENS



Se há um plural de nuvens e se há sombras
projetadas no texto das cavernas,
por que não mergulhar, tentar nas ondas
a refração dos peixes e das pedras?

Há sempre alguma névoa, um lado obscuro
que atravessa o poema. Há sempre um saldo
de formas laterais, um como escudo
que não resiste muito a teu assalto.

Se alguma luz na contraluz se esbate,
se há no curso dos dias sol e vento,
talvez na foz do rio outra cidade
venha no teu olhar amanhecendo.

Importa é caminhar, colher florzinhas,
somar os ( im ) possíveis e parcelas,
criar no tempo algumas coisas findas,
algumas ilusões e primaveras.

Importa é ler de perto a cavidade
das nuvens e espiar os seus não-ditos:
o mais são armas para o teu combate,
falsos alarmes para os teus sentidos.


Gilberto Mendonça Teles
In Plural das Nuvens


domingo, 3 de agosto de 2014

FILHO PRÓDIGO -




I
Ele me olha
com a expectativa do mundo.
Sonda o que sei,
pensa que eu sei.
 
II
Ele me acompanha
com os olhos da vida.
Mira o que dei,
julga o que eu sei.
 
III
Ele me abraça
com os anos da infância.
Acha que sou rei,
acredita que eu voltei.
 
IV
Ele me beija
com os lábios da inocência.
Escolhe as palavras,
multiplica suas vidas.
 
V
Ele me descobre
no ocaso da existência.
Confere o que sei:
já sabe que não sou rei.



Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"
12 de outubro de 2011 às 17:35


sábado, 2 de agosto de 2014

CÚMPLICE ALENTO



I
Sou lento.
Mas, atento
aos meus passos,
pesados e passados,
recupero minha História.
E persigo fantasmas
que até do diabo fogem:
aqueles que aflitos se escondem
não sei ainda por onde.
 
II
Sou vento.
Mas avento,
por entre as quatro Estações,
atos que aprendi a sentir,
sem pompa ou circunstância,
da Alma Feminina: de seus argutos,
áridos, vis ou nobres corações.
 
III
Sou advento.
Mas desinvento
cada passo e contrapasso
do meu Tempo e Memória.
Trapiche de infinitos universos,
amargo presenças e presentes:
escassos como parentes;
vários como meus únicos versos.
 
IV
Sou alento
para o leitor atento,
capaz de reler cada linha;
de arguir e beber cada ato.
Ele navega comigo.
Sem perceber o momento,
deslinda meu suposto intento:
torna-se cúmplice de inteiro trato.
 
 
*Jairo De Britto,
 em "Dunas de Marfim"

sexta-feira, 1 de agosto de 2014

PAZ




Na ponta dos pés
como bailarina pisando
em folhas e assombros,
costurar os dois lados da lua,
a Terra no céu,
e no céu e na Terra
desenhar com o corpo inteiro 
a palavra paz.

Roseana Murray, 
in Todas as Cores dentro do Branco

quarta-feira, 30 de julho de 2014

A VIAGEM DEFINITIVA



Ir-me-ei embora. E ficarão os pássaros
Cantando.
E ficará o meu jardim com sua árvore verde
E o seu poço branco.
Todas as tardes o céu será azul e plácido,
E tocarão, como esta tarde estão tocando,
Os sinos do campanário.

Morrerão os que me amaram
E a aldeia se renovará todos os anos.
E longe do bulício distinto, surdo, raro
Do domingo acabado,
Da diligência das cinco, das sestas do banho,
No recanto secreto do meu jardim florido e caiado
Meu espírito de hoje errará nostálgico...
E ir-me-ei embora, e serei outro, sem lar, sem árvore
Verde, sem poço branco,
Sem céu azul e plácido...
E os pássaros ficarão cantando.

Juan Ramón Jiménez 
- Trad. de Manuel Bandeira





DOÍDO CORAÇÃO DOIDO



Estive entre mim
e entre mim.

Naufrágios.
Difíceis rimas.
Remos de quebranto.
Ninguém sabe o que é.
O que se sabe não se diz.
O que se diz não se vê.

Doido coração. Doído.
Estoura, estala.
Estigma.


Lindolf Bell,
in Código das Águas


terça-feira, 29 de julho de 2014

O MILAGRE




Tu, que estremeces entre a dor passada
e a dor que chega(vês? A noite desce ...),
como podes semear, de novo, a messe
do sonho imenso, a um vento ruim tombada?

Sabes que inda te espera outra rajada,
porém sorris, e tens ao lábio a prece ...
Como que na tua alma resplandece
toda a curva da noite iluminada!

És, na esplanada aberta desta vida,
braceando aos céus, uma árvore despida
que as ventanias doidas esfolharam!

E sonhas! Ah! Na convulsão violenta,
que subterrânea fonte te alimenta,
que insondáveis raízes te ampararam?


Tasso da Silveira
in Poemas




segunda-feira, 28 de julho de 2014

HOMEM



É a Natureza, em torno. – Em vão a estudas,
e os problemas intérminos agitas:
em solidões desérticas transmudas
a seara azul das ilusões benditas ...

- É a altura imensa. – As ânsias mais agudas, por 
entendê-las, te laceram: gritas!
... mas são os astros reticências mudas
no silêncio das trevas infinitas ...

- É teu ser tumultuante. – Rememoras ...
e ouve vozes longínquas e sonoras
de perdidas distâncias, de outros mundos ...

Na água-morta do sonho te debruças,
cantas! E, assim cantando, é que soluças,
trêmulo, os teus soluços mais profundos ...


Tasso da Silveira 
in Poemas

sábado, 26 de julho de 2014

PLANTEI UMA HERA


Plantei na janela uma hera inclinada para dentro
para acolher o cheiro das manhãs em que as aves
se fazem aragem nas cortinas de cores vagas.
Encurvei os pulsos para que as mãos
se acrescentassem às sombras do beirais
sem a dor das palavras mutiladas.

Graça Pires
De Uma vara de medir o sol

sexta-feira, 25 de julho de 2014

MISSA



Na singela capela
há um pêndulo oficiante.
Enquanto no altar claro
o sacerdote invoca o Eterno,
em cânticos ardentes
e inenarráveis gemidos
o pêndulo vai marcando, 
vai contando
inexoravelmente
os minutos perdidos.


Tasso da Silveira 
Poemas de Antes – l.966 –

quinta-feira, 24 de julho de 2014

SAUDADE



Saudade! és a ressonância
De uma cantiga sentida,
Que, embalando a nossa infância,
Nos segue por toda a vida!

Da Costa e Silva,
in Poesias Completas


quarta-feira, 23 de julho de 2014

A JARRA



Na sala dourada o crepúsculo derramou uma 
ânfora de sombra.

E todas as cores diluíram-se em tons neutros
e mortos,
e os desenhos de linhas lúcidas
dos portais de ouro,
das poltronas hieráticas
e dos estofos claros
desfizeram-se num frêmito de dispersão infinita.

Mas sobre o consolo em mogno antigo
uma jarra de mármore branco
ficou vivendo ...
... ficou vivendo, alva, na sombra, a vida
integral e pura
da forma que se não dilui ...


Tasso da Silveira
in Poemas

terça-feira, 22 de julho de 2014

INTERMÉDIO – II



Dor:

saudade de realidades perdidas.

O ângulo forte de uma sala,
a curva leve de um canteiro de rosas,
o traço lúcido de um perfil,

que se perderam na sombra imensa do passado
e são como lanternas que para sempre se apagaram
na festa prodigiosa
dos sentidos ...


Tasso da Silveira
in Poemas



sábado, 19 de julho de 2014

NARCISO E O CÉU



Este céu de ouro nítido,
mirando-se na água sereníssima,
é Narciso.
Narciso, que se despercebia das coisas todas em torno,
das montanhas imóveis na líquida faiscação da luz macia,
das árvores em balouços esquecidos e lentos,
nas ninfas ágeis e frescas como frêmitos de alvorada
na tarde mansa,
das coisas todas que, no entanto, se saturavam da graça
pura do seu corpo,
- porque a alma inteira se lhe fundia no êxtase da sua
própria beleza refletida.

Narciso, que era,
na harmoniosa alma helênica,
uma adivinhação comovida
do Ser infinito e absoluto
que eternamente se contempla a si mesmo.


Tasso da Silveira
in Poemas

sexta-feira, 18 de julho de 2014

CANÇÃO



Os cavalos do tempo são de vento.
Têm músculos de vento,
nervos de vento, patas de vento, crinas de vento.

Perenemente em surda galopada,
passam brancos e puros
por estradas de sonho e esquecimento. 

Os cavalos do tempo vão correndo.
Vêm correndo de origens insondáveis,
e a um abismo absoluto vão rumando. 

Passam puros e brancos, livres, límpidos,
no indescontínuo imemorial esforço.
Ah! são o eterno atravessando o efêmero:
levam sombras divinas sobre o dorso...


Tasso da Silveira
(Regresso à Origem, 1960)





quarta-feira, 16 de julho de 2014

FELICIDADE



Ela veio bater à minha porta
e falou-me a sorrir, subindo a escada:
“Bom dia, árvore velha e desfolhada”
e eu respondi: “Bom dia, folha morta”

Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...

Então chamou-me e disse:“Vou-me embora!
Sou a felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz”

E foi assim que em plena primavera,
só quando ela partiu contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!


Guilherme de Almeida
in Sonetos


terça-feira, 15 de julho de 2014

DA COR



"Há uma cor que não vem nos dicionários.
É essa indefinível cor que têm todos os retratos,
os figurinos da última estação, a voz das velhas damas,
os primeiros sapatos, certas tabuletas,
certas ruazinhas laterais : a cor do tempo …''

Mario Quintana
in Sapato Florido

sexta-feira, 11 de julho de 2014

NAS VOZES



Nas vozes
das velhas árvores
reconheço as dos meus ancestrais.

Sentinelas de séculos,
seu sonho está nas raízes.


Humberto Ak'abal
In Tecedor de Palavras


A CADA UM




Amanhece.

O Sol come a neblina
e começa a pintar
caminhos,árvores,
casinhas,
animais,
pessoas...

E a cada um
lhe põe sombra.


Humberto Ak'abal
In Tecedor de Palavras


NÃO ESTÃO



Os pássaros não estão,
se esconderam no meu coração.

Hoje sou ninho.

Humberto Ak'abal, 
In Tecedor de Palavras


PÁSSARO SEM ASAS



Noites escuras,
fundas, fundas,
profundas.

A escuridão tem o encantamento
de aproximar ruídos longínquos
e aumentar os pequenos.

Choveu,
me encharco.

Minha memória 
recua,recua
até encontrar minha alma de menino.
(a escuridão 
se presta para isso.)

Sou um pássaro sem asas
e não caio
porque me seguro no ar.

Humberto Ak'abal, 
In Tecendor de Palavras

AQUELA GOTA D'ÁGUA



Aquela gota
que se desprendia do teto
da minha infância
a única que ficava
depois da chuva

continua pingando
na minha memória.

Humberto Ak'abal


quinta-feira, 10 de julho de 2014

DE UMA ENTREVISTA PARA O BOLETIM DO INBA


 
Não pretendo que a poesia seja
um antídoto para a tecnocracia atual.
Mas sim um alívio.
Como quem se livra de vez em quando
de um sapato apertado e passeia descalço
sobre a relva, ficando assim mais próximo
da natureza, mais por dentro da vida.
Porque as máquinas um dia viram sucata.
A poesia, nunca.
 
Mario Quintana,
in A Vaca e o Hipogrifo


terça-feira, 8 de julho de 2014

A AVÓ



Tinha ao colo o gato velho
cansadamente passando
a sua branca mão pelo
pêlo dele preto e brando 

Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a
todo o passado passando
a passos lentos por ela

Dormiam ambos enquanto
a tarde se ia acabando
o gato dormindo por fora
a avó dormindo por dentro

Manuel António Pina;
in Os Livros; Assírio & Alvim, 2003


sábado, 5 de julho de 2014

ENTENDIMENTO PERFEITO



Sentaram-se no banco e se calaram, tentando entender
o silêncio. As palavras tinham um sentido além delas
mesmas. O silêncio seria, sempre, o único meio de
entendimento perfeito.

Fernando Sabino
In “0 Encontro Marcado”


quarta-feira, 2 de julho de 2014

POEMA DO NOME PERDIDO




Como é teu nome, ó amiga estrangeira,
como é teu nome, ó rosto branco,
madona de tranças tristes, rio de ouro que um vento frisa?

Onde está o teu nome, dentro de mim, que não o encontro?
Acho tuas mãos tão finas, teus olhos verdes,
teu silencio delicado...
Mas teu nome onde está?

Deves começar por A, tão clara tão nítida,
tão perdida...
água...Oh!... Ar... Dize, como te chamas?

Quero escrever-te, e conheço-te,
e não me lembro do teu nome...
Alba... Aurora... Asa... Aragem...

Como te chamas? E por que não me lembro,
lembrando-te tanto, querendo-te tanto?
Decerto, o que estimo em ti não tem nome nenhum.
Nem mesmo o teu.

Mas o teu qual é, ó amiga que assim te escondes?

Cigarra na folhagem, sussurra para que te encontre!

Amália! Amália!

Ó exata, ó fiel, ó geométrica,
é dona das cores matutinas, dos barcos brancos,
das janelas fechadas ao crepusculo!...

Quem separa dentro de mim teu rosto do teu nome?

E procurei-o letra por letra,
como em noite escura se adivinha uma flor,
tocando pétala por pétala.

E eras inúmera! Amália, Amália...

Dália . 


Cecília Meireles
Poesia Completa
In: Dispersos (1918 – 1964)

terça-feira, 1 de julho de 2014

PROFECIA



Cada gesto de ódio
cada gesto de prepotência
cada gesto para amordaçar a verdade
cada gesto para amparar a mentira
cada gesto que suprime outro gesto
cada gesto — indigesto

— voltará implacável como um “boomerang”
e ninguém escapará a essa lei.

Sidónio Muralha
“in” Obras Completas do Poeta


SONETO DA METAMORFOSE



Mãos, simples mãos, moldaram os meus versos
e pés humanos pisam o que escrevo.
Aos outros que conquistem universos
e a mim que pague ao povo o que lhe devo.

Mesmo que os dias sejam adversos,
é um trevo a missão a que me atrevo,
dia e noite seus gestos são diversos
- detesta o escuro, de dia abre-se o trevo.

Abre-se como o pranto, como as fontes
que irrompem das montanhas e dos montes,
descem aos vales, vão até às casas...

Um soneto estremece a manhã cálida
e o povo, num silêncio de crisálida,
forja, no sofrimento, as suas asas.

Sidónio Muralha

(1920-1982)


segunda-feira, 30 de junho de 2014

DE QUE SÃO FEITOS OS DIAS?



De que são feitos os dias?
- De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias
- do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças...


Cecília Meireles
In Canções

A CRIANÇA QUE FUI CHORA NA ESTRADAa


I

A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.


Fernando Pessoa
in Novas Poesias Inéditas.


domingo, 29 de junho de 2014

AS RUAS



No tempo 
em que havia ruas, 
ao fim da tarde 
minha mãe nos convocava: 
era a hora do regresso. 
E a rua entrava 
connosco em casa. 
Tanto o Tempo 
morava em nós 
que dispensávamos futuro. 
Recolhida em meu quarto, 
a cidade adormecia 
no mesmo embalo da nossa mãe. 
À entrada da cama, 
eu sacudia a areia dos sonhos 
e despertava vidas além. 
Entre casa e mundo 
nenhuma porta cabia: 
que fechadura encerra 
os dois lados do infinito? 

MIA COUTO 
In Tradutor de chuvas, 2011



sábado, 28 de junho de 2014

A CANOA



Rompida de brechas, carcomida
por anos sem conta de luta no mar,
a velha canoa dos pescadores
foi arrastada para a planície,
foi exilada em terra firme,
longe do mar.
 
Mas veio o crepúsculo, e pôs distâncias no horizonte.
 
E a planície fremiu ansiadamente ...
 
... como se tivesse vontade de ser água
para a canoa navegar ... 
 
 
Tasso da Silveira
in Poemas




quinta-feira, 26 de junho de 2014

FIM DE JORNADA


 
Caminhar ao encontro da noite.
Como o camponês regressa ao lar.
Após um longo dia de verão.
 
Sem pressa ou cuidado.
Na tarde ouro e cinza.
Sozinho entre os campos lavrados.
E as colinas distantes.
 
Caminhar, ao encontro da noite.
Sem pressa ou cuidado.
A noite é somente uma pausa de sombra.
Entre um dia e outro dia.
 
 
Helena Kolody,
in Vida Breve

PENUMBRA




Já se aprofundam as raízes
no repouso do silêncio.
Cresce o musgo nas fundas cicatrizes.
Levita a fronde.
Na penumbra dos ramos,
tímido pássaro
inicia um canto de eternidade.

Helena Kolody ,
in Viagem no Espelho

terça-feira, 24 de junho de 2014

OH AS CASAS...




Oh as casas as casas as casas as casas nascem vivem e morrem
Enquanto vivas distinguem-se umas das outras
distinguem-se designadamente pelo cheiro
variam até de sala pra sala
As casas que eu fazia em pequeno
onde estarei eu hoje em pequeno?
Onde estarei aliás eu dos versos daqui a pouco?
Terei eu casa onde reter tudo isto
ou serei sempre somente esta instabilidade?
As casas essas parecem estáveis
mas são tão frágeis as pobres casas
Oh as casas as casas as casas
mudas testemunhas da vida
elas morrem não só ao ser demolidas
Elas morrem com a morte das pessoas
As casas de fora olham-nos pelas janelas
Não sabem nada de casas os construtores
os senhorios os procuradores
Os ricos vivem nos seus palácios
mas a casa dos pobres é todo o mundo
os pobres sim têm o conhecimento das casas
os pobres esses conhecem tudo
Eu amei as casas os recantos das casas
Visitei casas apalpei casas
Só as casas explicam que exista
uma palavra como intimidade
Sem casas não haveria ruas
as ruas onde passamos pelos outros
mas passamos principalmente por nós
Na casa nasci e hei-de morrer
na casa sofri convivi amei
na casa atravessei as estações
Respirei – ó vida simples problema de respiração
Oh as casas as casas as casas


Ruy Belo,
in Todos os Poemas


VEM VENTO, VARRE!




Vem vento, varre
Sonhos e mortos.
Vem vento, varre
Medos e culpas.
Quer seja dia,
Quer faça treva,
Varre sem pena,
Leva adiante
Paz e sossego,
Leva contigo
Nocturnas preces,
Presságios fúnebres,
Pávidos rostos
Só cobardia.

Que fique apenas
Erecto e duro
O tronco estreme
De raiz funda.
Leva a doçura,
Se for preciso:
Ao canto fundo
Basta o que basta.
Vem vento, varre!

Adolfo Casais Monteiro

segunda-feira, 23 de junho de 2014

NO MEU JARDIM



No meu jardim aberto ao sol da vida,
Faltavas tu, humana flor da infância
Que não tive...

E o que revive
Agora
À volta da candura
Do teu rosto!

O recuado Agosto
Em que nasci
Parece o recomeço
Doutro destino:

Este, de ser menino
Ao pé de ti...

MIGUEL TORGA, in DIÁRIO VIII
(Antologia Poética)

quarta-feira, 18 de junho de 2014

A CASA DO TEMPO PERDIDO




Bati no portão do tempo perdido, ninguém atendeu.
Bati segunda vez e mais outra e mais outra.
Resposta nenhuma.
A casa do tempo perdido está coberta de hera
pela metade; a outra metade são cinzas.


Casa onde não mora ninguém, e eu batendo e chamando
pela dor de chamar e não ser escutado.


Simplesmente bater. O eco devolve
minha ânsia de entreabrir esses paços gelados.
A noite e o dia se confundem no esperar,
no bater e bater.

O tempo perdido certamente não existe.
É o casarão vazio e condenado.


Carlos Drummond de Andrade

segunda-feira, 16 de junho de 2014

POEMA INFINITIVO



A Dante Milano

Valorizar toda manhã de sol
como se a derradeira fosse.
Toda manhã de sol sobre a verdura
como se nunca mais houvesse.
Sentir que a vida é ainda boa e amiga
feito na antiga meninice.
E não temer a morte soberana
que se engalana para o enlace.


Fernando Py
in 70 Poemas Escolhidos

FUI EU



Fui eu esse menino que me espia
- melancólico olhar, sereno rosto,
postura fixa e o todo bem composto -
no retrato que o tempo desafia.

Fui eu na minha infância fugidia
de prazeres ingênuos, e o desgosto
de sentir tão efêmera a alegria
bem depressa trocada em seu oposto.

Fui eu, sim; mas o tempo que perpassa
e tudo altera nem sequer deixou
um grão de infância feito esmola escassa.

Fui eu: e na figura só ficou
o olhar desenganado, na fumaça
em que a criança inteira se mudou.

__Fernando Py, 
Poema da Antologia"Fui Eu".







domingo, 15 de junho de 2014

ÁRVORE



Árvore

Um passarinho pediu a meu irmão para ser sua árvore.
Meu irmão aceitou de ser a árvore daquele passarinho.
No estágio de ser essa árvore, meu irmão aprendeu de
sol, de céu e de lua mais do que na escola.
No estágio de ser árvore meu irmão aprendeu para santo
mais do que os padres lhes ensinavam no internato.
Aprendeu com a natureza o perfume de Deus
seu olho no estágio de ser árvore aprendeu melhor o azul
E descobriu que uma casa vazia de cigarra esquecida
no tronco das árvores só serve pra poesia.
No estágio de ser árvore meu irmão descobriu que as 
árvores são vaidosas.
Que justamente aquela árvore na qual meu irmão se 
transformara,envaidecia-se quando era nomeada para o
entardecer dos pássaros e tinha ciúmes da brancura que
os lírios deixavam nos brejos.
Meu irmão agradecia a Deus aquela permanência em árvore
porque fez amizade com muitas borboletas.

Manoel de Barros,
in Ensaios Fotográficos








sexta-feira, 13 de junho de 2014

A VIAGEM



Vamos ser velhos ao sol nos degraus
da casa; abrir a porta empenada de
tantos invernos e ver o frio soçobrar
no carvão das ruas; espreitar a horta
que o vizinho anda a tricotar e o vento
lhe desmancha de pirraça; deixar a
 
chaleira negra em redor do fogão para
um chá que nunca sabemos quando
será – porque a vida dos velhos é curta,
mas imensa; dizer as mesmas coisas
muitas vezes – por sermos velhos e por
serem verdade. Eu não quero ser velha
 
sozinha, mesmo ao sol, nem quero que
sejas velho com mais ninguém. Vamos
ser velhos juntos nos degraus da casa –
se a chaleira apitar, sossega, vou lá eu; não
atravesses a rua por uma sombra amiga,
trago-te o chá e um chapéu quando voltar.
 
Maria do Rosário Pedreira